Saúde

Casos de doença inflamatória intestinal no Brasil quintuplicam e pressionam o SUS

Estudo com 337 mil pacientes do sistema público projeta alta de 67% até 2035 e liga avanço a ultraprocessados e agrotóxicos
Atendimento médico representa o aumento da doença inflamatória intestinal no Brasil e a pressão sobre o SUS.

A prevalência de doenças inflamatórias intestinais no Brasil saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025 — mais de cinco vezes em pouco mais de uma década.

O número vem de um levantamento com 337.539 pacientes atendidos pelo SUS, apresentado nesta sexta-feira (25) no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC).

Os autores descrevem o trabalho como um dos maiores retratos epidemiológicos dessas doenças já produzidos em países em desenvolvimento.

Mais revelador que o estoque de casos é o ritmo dos novos diagnósticos. A incidência passou de 9,35 para 12,34 casos por 100 mil habitantes no período — e mudou de curva em 2018, quando o crescimento acelerou sem explicação clara.

Segundo o pesquisador Quaresma, em entrevista ao g1, pesam ao mesmo tempo o crescimento populacional, a expansão global dessas doenças e o fato de a condição ser hoje mais conhecida pelos médicos. Nenhum dos fatores, isoladamente, dá conta da virada.

O que entra na conta

O grupo reúne principalmente a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, inflamações crônicas e persistentes do trato digestivo que não têm cura. O tratamento busca a remissão clínica e, nos quadros graves, envolve medicamentos biológicos que podem custar até R$ 500 mil por ano.

Os modelos estatísticos projetam 264 casos por 100 mil habitantes em 2035, alta de 67% sobre 2025, com incidência de até 22,7 novos casos — patamar já observado hoje em algumas regiões da Europa. A estimativa parte de tendências passadas e pode mudar conforme o acesso à colonoscopia avance em áreas desassistidas ou recue.

O retrato é provavelmente conservador: o levantamento enxerga apenas o SUS. Quem tem plano e busca a rede pública pelos biológicos entra na estatística; quem recebe os remédios pelo convênio fica de fora. O estudo foi bancado pelos próprios autores, sem patrocínio da indústria farmacêutica.

Ambiente pesa mais que herança

Apenas cerca de 30% dos pacientes apresentam alterações genéticas associadas à doença, o que afasta a ideia de uma origem exclusivamente hereditária. O ambiente parece decisivo: imigrantes asiáticos vindos de regiões de baixíssima incidência para os Estados Unidos passam a ter, em cerca de dez anos, o mesmo risco de um americano.

A hipótese mais aceita envolve o empobrecimento da microbiota intestinal pela dieta ultraprocessada. Os conservantes e aditivos que impedem fungos e bactérias de crescer no pão de supermercado também reduzem a diversidade da flora intestinal. Associação, ressalvam os pesquisadores, não é causa única — cortar um item isolado não protege ninguém.

A distribuição pelo país também é desigual. Norte e Nordeste registram índices bem menores, diferença ligada em parte a barreiras de acesso ao diagnóstico e, por consequência, à subnotificação. Um trabalho anterior do mesmo grupo apontou o noroeste paulista e o noroeste paranaense como as maiores concentrações de casos, regiões de forte presença do agronegócio — daí a hipótese, pouco descrita na literatura internacional, de um papel dos agrotóxicos e da fumaça das queimadas de cana.

Anos até a confirmação

Levantamento da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn indica de três a quatro anos até o diagnóstico, prazo menor no Sul e no Sudeste e bem maior em estados como o Amazonas. Metade dos pacientes com Crohn passará por ao menos uma cirurgia na vida. Para os autores, a fatura mais imediata é econômica e recai sobre o SUS e os planos ao mesmo tempo.