Uma equipe internacional de cientistas descobriu um aquífero submarino de água doce capaz de abastecer milhões de pessoas. A reserva, localizada sob o leito do mar próximo à costa nordeste dos Estados Unidos, foi investigada durante expedição global inédita neste verão do Hemisfério Norte.
A novidade pode representar uma solução para crises hídricas, mas há desafios técnicos, ambientais e sociais para sua exploração. O estudo busca entender a origem, idade e viabilidade do uso desse recurso.
Descoberta e características do aquífero
O lençol subterrâneo de água doce foi encontrado abaixo do fundo do mar, isolado por camadas de sedimentos que impedem a mistura com a água salgada. Perfurações realizadas ao largo de Cape Cod, Massachusetts, revelaram milhares de amostras, indicando que a reserva pode se estender de Nova Jersey até o Maine. A expedição, batizada de Expedition 501, custou US$ 25 milhões, reuniu cientistas de mais de dez países e foi financiada pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA e pelo Consórcio Europeu de Perfuração em Pesquisa Oceânica.
Segundo Brandon Dugan, co-chefe científico da missão, “precisamos olhar para todas as possibilidades que temos para encontrar mais água para a sociedade”. O geofísico explicou que a equipe buscou água “em um dos últimos lugares onde alguém provavelmente procuraria por água doce na Terra”. Amostras coletadas apresentaram salinidade de apenas 1 a 4 partes por mil, comparado às 35 partes por mil do oceano, indicando água potável.
Importância e desafios
A reserva pode ser crucial para regiões com escassez hídrica, mas a extração apresenta desafios técnicos, econômicos e ambientais. Jocelyne DiRuggiero, bióloga da Universidade Johns Hopkins, alerta que a água pode conter minerais nocivos à saúde, pois percolou por camadas de sedimentos. O sequenciamento de DNA das amostras irá revelar os microrganismos presentes e sua viabilidade para consumo humano.
Além disso, há incerteza sobre a idade da água: se for milenar, vinda do derretimento de geleiras, o recurso pode ser finito; se for mais recente, indica recarga contínua. “Se for jovem, significa que foi uma gota de chuva há 100 ou 200 anos”, disse Dugan.
Implicações sociais e ambientais
O uso da água submarina levanta questões sobre gestão, custos e sustentabilidade. Decidir quem administraria o recurso, como evitar contaminação por água salgada e se seria mais viável que usinas de dessalinização são pontos em aberto. Comunidades costeiras poderiam recorrer ao aquífero em situações de seca ou enchentes, mas a ideia ainda não entrou no radar de políticas públicas.
Rob Evans, geofísico de Woods Hole, destaca a necessidade de cautela: “Se começássemos a bombear agora, quase certamente haveria consequências imprevistas. Precisaríamos de muito equilíbrio antes de avançar”. Extrair água pode alterar reservas terrestres conectadas e afetar ecossistemas marinhos.
Contexto global e histórico
O interesse em água doce sob o mar não é novo. Em 1976, o USGS já havia encontrado água doce em profundidades elevadas, e pesquisas em 2015 mapearam aquíferos submarinos na região. A demanda global por água doce deve superar a oferta em 40% até 2029, segundo a ONU, agravada pelo aumento do nível do mar e consumo crescente por data centers.
Casos como o de Cidade do Cabo, que quase ficou sem água em 2018, mostram a relevância de novas fontes. Pesquisadores acreditam que outros continentes também abrigam aquíferos submarinos, potencializando o impacto da descoberta.
Próximos passos
Nos próximos meses, cerca de 50 mil litros de água serão analisados em laboratórios ao redor do mundo para determinar sua origem, idade e segurança para consumo. A equipe científica se reunirá na Alemanha para discutir os resultados e avaliar o potencial de uso em larga escala.