Uma corrente de água quente que circula nas profundezas do Oceano Austral avançou em direção à Antártida nas últimas quatro décadas — e, pela primeira vez, pesquisadores têm evidências observacionais concretas disso.
O estudo foi publicado nesta segunda-feira (28) na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, por equipes da Universidade de Cambridge e da Universidade da Califórnia.
A descoberta é crítica: as plataformas de gelo antárticas travam o avanço das geleiras em direção ao mar. A Antártida retém água suficiente para elevar o nível dos oceanos globais em até 58 metros — e mesmo uma fração disso teria consequências devastadoras para cidades costeiras, incluindo as brasileiras.
A barreira que está desaparecendo
O fenômeno investigado é o avanço da chamada água circumpolar profunda — uma corrente quente que sempre existiu nas camadas mais baixas do Oceano Austral, mas que historicamente ficava contida por uma barreira de água fria e densa, impedida de alcançar o continente.
Os dados do novo estudo mostram que essa barreira está recuando. Com o recuo, a água quente profunda avança para o espaço deixado para trás e chega cada vez mais perto das plataformas de gelo que protegem a Antártida por dentro.
“No passado, as camadas de gelo eram protegidas por um banho de água fria. Agora parece que a circulação do oceano mudou, e é quase como se alguém tivesse aberto a torneira quente”, disse Sarah Purkey, professora de Oceanografia Física no Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego e coautora do estudo.
Como a descoberta foi possível
Para chegar ao resultado, os pesquisadores combinaram dois conjuntos históricos de dados: medições de navios científicos coletadas ao longo de décadas — com intervalos de anos entre cada coleta — e as boias Argo, dispositivos autônomos que derivam pelo oceano e transmitem dados de forma contínua, mas com histórico mais curto.
Usando aprendizado de máquina, a equipe integrou os dois conjuntos e construiu um registro mensal detalhado das últimas quatro décadas do Oceano Austral. Foi esse histórico reconstituído que permitiu identificar, pela primeira vez, a tendência de avanço da água quente ao longo do tempo.
A causa identificada pelos pesquisadores passa diretamente pelo aquecimento global: mais de 90% do calor acumulado em excesso pelo planeta — resultado das emissões de gases de efeito estufa — é absorvido pelos oceanos, sendo o Oceano Austral o principal receptor. À medida que as temperaturas sobem e o degelo adiciona água doce ao mar, a barreira de água fria que protegia a Antártida enfraquece, e a corrente quente profunda ocupa o espaço que sobra.
Consequências além do gelo antártico
O estudo ganha peso adicional porque o Oceano Austral é peça-chave no sistema climático global. É nessas águas polares que se forma a água fria, densa e rica em carbono que afunda e alimenta as grandes correntes de circulação oceânica — entre elas a Circulação de Revolvimento do Atlântico (AMOC), que distribui calor pelo Atlântico e regula o clima de continentes inteiros.
O avanço da água quente profunda em direção à Antártida ocorre justamente quando a ciência já alertava para sinais críticos na AMOC: um estudo publicado em abril na Science Advances projeta que a corrente pode enfraquecer 51% até 2100 — 60% acima do previsto pelo IPCC.
“O Oceano Austral desempenha um papel fundamental na regulação do calor global e do armazenamento de carbono. Mudanças na distribuição do calor aqui têm implicações mais amplas para o sistema climático global”, alertou Ali Mashayek, professor de Cambridge e coautor do estudo.
O dado mais urgente, segundo os próprios pesquisadores, é que o processo deixou de ser projeção. “Não é apenas uma possibilidade futura sugerida pelos modelos; é algo que está acontecendo agora, com implicações amplas para a forma como carbono, nutrientes e calor circulam pelo oceano global”, concluiu um dos autores envolvidos no trabalho.
