O ciclo de quase 20 anos do Movimento ao Socialismo (MAS) no poder chegou ao fim nas eleições presidenciais deste domingo (17/8) na Bolívia. A divisão entre os grupos de Evo Morales e Luis Arce resultou em um desempenho histórico negativo para a esquerda, com apenas 3,2% dos votos para Eduardo del Castillo. O segundo turno será disputado entre Rodrigo Paz Pereira e Jorge “Tuto” Quiroga.
O cenário é marcado por crise econômica, esgotamento do modelo baseado na exportação de gás e influência crescente da direita tradicional e conservadora, impulsionada por exemplos regionais como Milei e Bolsonaro.
Fim do ciclo do MAS e crise econômica
O MAS, partido nacionalista responsável por profundas transformações sociais e econômicas na Bolívia sob liderança de Evo Morales, sofreu uma derrota histórica nas eleições de 17 de agosto. O partido, rachado entre os grupos de Evo e do presidente Luis Arce, obteve apenas 3,2% dos votos com Eduardo del Castillo. Andrónico Rodríguez, outro nome à esquerda, alcançou 8,15%. O segundo turno será entre Rodrigo Paz Pereira (32,08%), do Partido Democrata Cristão, e Jorge “Tuto” Quiroga (26,94%), da Aliança Livre.
Durante a década de 2010, a Bolívia cresceu em média 5% ao ano, impulsionada pelas exportações de gás. No entanto, a falta de investimentos nas reservas e a mudança de estratégia de Brasil e Argentina reduziram drasticamente as exportações, levando à escassez de dólares e instabilidade econômica. As reservas oficiais caíram de US$ 15 bilhões em 2015 para US$ 1,9 bilhão em 2024.
A cisão do MAS ficou evidente em 2023, quando Evo Morales anunciou candidatura para 2025, desafiando Arce. A disputa interna se agravou, especialmente em torno da política para as reservas de lítio. Evo defende nacionalização total, enquanto Arce busca parcerias internacionais.
Ascensão da direita e influência regional
O avanço da direita boliviana ocorre em meio ao cansaço popular com o MAS e à influência de movimentos conservadores da região. Em Santa Cruz de La Sierra, há influência direta da direita brasileira, inclusive de bolsonaristas. A eleição de Milei na Argentina e seu controle da inflação também servem de exemplo para setores conservadores bolivianos.
Apesar disso, analistas apontam que a direita boliviana é menos extremista que seus pares regionais. Tuto Quiroga representa a direita tradicional, enquanto Samuel Doria Medina, mais ao centro, contou com apoio de figuras como Luiz Camacho e Marcelo Claure, empresários influentes no cenário nacional.
O futuro de Evo Morales e do MAS
Evo Morales, impedido de concorrer por decisão judicial, pediu votos brancos ou nulos como protesto. Ele enfrenta mandado de prisão por investigação de abuso de menor, o que ele classifica como perseguição. No Chapare, região de forte apoio a Evo, o Estado enfrenta um vazio de poder, com ausência de campanhas e da polícia.
Analistas divergem sobre o futuro do MAS e de Evo. Moira Zuazo acredita que o partido pode se reconstruir de forma mais democrática e plural, enquanto Fernando Molina aponta que a crise econômica pode abrir espaço para o retorno de Evo, caso o novo governo não consiga resolver os problemas do país.
O modelo econômico do MAS, baseado na estatização dos recursos naturais e distribuição de renda, mostrou-se insustentável diante da queda nas exportações de hidrocarbonetos e da falta de debate interno sobre alternativas. O personalismo de Evo e a falta de sucessão clara contribuíram para a derrocada do partido.
No cenário político, a direita tradicional assume protagonismo, mas sem o perfil radical visto em outros países da região. O desfecho das eleições e o futuro do MAS permanecem incertos, com a Bolívia diante de desafios econômicos e políticos inéditos em sua história recente.