Os bolivianos vão às urnas neste domingo (17) para escolher um novo presidente em meio a uma grave crise econômica. As pesquisas apontam para uma virada à direita após 20 anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), liderado por Evo Morales.
Os candidatos da oposição, Samuel Doria Medina e Jorge Quiroga, lideram as intenções de voto e devem disputar o segundo turno. A eleição ocorre em um cenário de inflação alta, escassez de dólares, combustíveis e alimentos, e desvalorização da moeda local.
Cenário econômico e político
Com uma inflação acumulada próxima de 25% no último ano, a mais alta desde 2008, a Bolívia enfrenta dificuldades severas. O país, com 11,3 milhões de habitantes e forte influência indígena, sofre com a queda nas exportações de gás desde 2017, principal fonte de divisas. A população atribui a crise ao governo impopular do presidente Luis Arce.
Freddy Millán, engenheiro de Santa Cruz, relata: “Nossa situação está realmente no chão. Nossa moeda foi desvalorizada, os salários não são suficientes, tudo está caríssimo”. O voto é obrigatório para quase oito milhões de eleitores registrados.
Fragmentação da esquerda
O MAS vive seu pior momento eleitoral desde 2006. Evo Morales, impedido de concorrer, refugia-se em uma vila para evitar ordem de captura por suposto tráfico de menores, acusação que nega. Morales incentiva o voto nulo e promete continuar lutando, mesmo diante do provável triunfo da oposição.
A disputa interna entre Morales e Arce implodiu o partido e aprofundou a crise, com episódios de violência e bloqueios. Os candidatos governistas Eduardo Del Castillo e Andrónico Rodríguez aparecem atrás nas pesquisas.
Planos dos candidatos e desejo de mudança
Samuel Doria Medina e Jorge Quiroga, ambos de partidos direitistas, prometem um plano de choque para a economia, com redução drástica dos gastos públicos e desmontagem de subsídios. “Vai começar uma nova etapa em que o mais importante será recuperar a estabilidade econômica, para sair do estatismo e ter uma economia capitalista”, declarou Doria Medina.
Quiroga fala em promover uma “mudança sísmica”. Analistas como Pablo Calderón, da Northeastern University de Londres, destacam que, após 20 anos do MAS, o governo não pode mais culpar terceiros pela crise. Durante o governo Morales, a Bolívia triplicou a produção interna, reduziu a pobreza de 60% para 37% e empoderou indígenas.
Glaeldys González, do Crisis Group, afirma que os bolivianos estão abertos à liberalização da economia e redução do papel do Estado. “A situação atualmente é a pior que esta geração viveu na área econômica e, acredito, que há, sim, muito mais abertura para este tipo de política”, enfatiza.
A estudante Alejandra Ticona, de La Paz, reconhece avanços para agricultores, mas defende a vitória da direita para solucionar a crise.