O outsider de direita Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial colombiana no domingo (21) e altera de imediato o cenário geopolítico da América do Sul.
Com quase 13 milhões de votos, o presidente eleito deixa Brasil e Uruguai como os únicos governos de esquerda da região — enquanto o Peru pende para a direita após apuração disputadíssima em 2026.
Marco Rubio foi um dos primeiros líderes mundiais a parabenizá-lo, sinalizando que o governo Trump quer cooperação com Bogotá em segurança regional, imigração e comércio.
Nova aliança, velhos desafios
De la Espriella é aberto admirador de Donald Trump — possui dupla nacionalidade americana — e defende o confronto militar ao narcotráfico como pilar central do seu governo. Durante a campanha, avaliou a possibilidade de lançar um “Plano Colômbia 2.0”, retomando a parceria militar e econômica que marcou a relação entre Bogotá e Washington no início dos anos 2000.
A vitória redefine o mapa político sul-americano. Junto a Javier Milei, na Argentina, e Daniel Noboa, no Equador, De la Espriella integra agora um bloco alinhado à agenda de segurança e livre mercado de Trump no continente. No Peru, a provável vitória de Keiko Fujimori — com margem de apenas 1.026 votos — reforça o isolamento de Brasil e Uruguai como últimos governos de esquerda da região.
A Colômbia é o maior produtor e exportador de cocaína do mundo e convive com um conflito armado de mais de 60 anos. Os grupos armados somam hoje mais de 27 mil integrantes — o dobro de cinco anos atrás — e o país registra o segundo maior índice de homicídios da América do Sul, atrás apenas do Equador.
A proposta de bombardear acampamentos “narcoterroristas” e aumentar o orçamento militar se alinha à estratégia americana que, desde setembro de 2025, atacou dezenas de supostas narcoembarcações no litoral sul-americano, deixando mais de 200 mortos.
Expectativas, riscos e o avanço da China
A eleição foi disputadíssima: De la Espriella somou 12,96 milhões de votos contra 12,7 milhões do candidato do governo Petro, Iván Cepeda. A diferença estreita sinaliza resistência ativa a parte das suas políticas — ainda que no discurso da vitória o presidente eleito tenha adotado tom mais conciliador, prometendo governar “para todos os colombianos”.
Para Elizabeth Dickinson, do International Crisis Group, o principal desafio será alinhar as prioridades colombianas à agenda americana “protegendo ao mesmo tempo sua população civil em um contexto de divisão política e conflitos internos”.
Outro obstáculo vem do próprio Washington. Sergio Guzmán, da Colombia Risk Analysis, alerta que a expectativa de retomada da assistência americana pode frustrar: “Trump não é um líder particularmente generoso.” A Colômbia foi um dos países mais atingidos pelos cortes da USAID, desmantelada pelo governo republicano.
Enquanto isso, a China avança silenciosamente. Pequim disputa com os Estados Unidos a posição de maior parceiro comercial de Bogotá e pode superá-los nos próximos anos. Antes mesmo da eleição colombiana, cinco países sul-americanos já tinham lançado um plano conjunto contra o crime transnacional — sinal de que o reordenamento geopolítico na região vai muito além de um único resultado eleitoral.
