A ONU denuncia que a crise de fome em Gaza atingiu níveis sem precedentes, com milhares de caminhões de ajuda retidos nas fronteiras. Autoridades relatam desnutrição severa entre crianças e dificuldades para distribuir alimentos e medicamentos devido a restrições impostas por Israel.
O chefe da Unrwa, Philippe Lazzarini, alerta que pais estão famintos demais para cuidar dos filhos. Organizações internacionais e profissionais de saúde relatam exaustão e riscos crescentes na tentativa de socorrer a população local.
Desnutrição infantil e colapso humanitário
Segundo Philippe Lazzarini, chefe da Unrwa, uma em cada cinco crianças na cidade de Gaza está desnutrida. Ele descreve que a maioria das crianças atendidas está “esquelética, fraca e em alto risco de morrer se não receber tratamento urgentemente”. Pais, exaustos e famintos, têm dificuldade para cuidar dos filhos. Profissionais de saúde da Unrwa sobrevivem com apenas uma refeição diária, frequentemente lentilhas, e há relatos de funcionários desmaiando de fome durante o trabalho.
Milhares de caminhões carregados de comida e medicamentos aguardam autorização para entrar em Gaza, enquanto Israel restringe a passagem. Lazzarini apela para que Israel permita assistência humanitária irrestrita.
Restrição e tensão entre Israel e agências humanitárias
O OCHA alerta que a quantidade de ajuda que entra em Gaza é insuficiente diante das necessidades. Civis que tentam acessar caminhões da ONU frequentemente são alvejados. Israel acusa a agência de parcialidade e anunciou restrições à atuação da OCHA, incluindo triagem de funcionários e veto à renovação de visto do chefe do escritório.
O Ministério da Saúde de Gaza informou que, nas últimas 24 horas, duas pessoas morreram por fome e desnutrição, totalizando 113 mortes por essas causas. A ONU afirma que 2,1 milhões de habitantes enfrentam grave escassez de suprimentos e que a fome está se espalhando rapidamente.
Mortes durante busca por alimentos e impasse na distribuição
Desde 27 de maio, pelo menos 1.054 palestinos foram mortos por militares israelenses enquanto buscavam alimentos, segundo a ONU. Desse total, 766 mortes ocorreram próximas aos pontos da Fundação Humanitária da Gaza (GHF) e 288 perto de comboios de ajuda da ONU e outras organizações. A GHF, apoiada por EUA e Israel, utiliza empresas privadas de segurança para distribuir ajuda em zonas militares controladas por Israel. Israel e EUA defendem o sistema para evitar que o Hamas intercepte os suprimentos, mas a ONU se recusa a cooperar, alegando falta de provas de desvio sistemático.
Relatos de profissionais de saúde e condições nos hospitais
A médica Aseel Horabi, que atua em Gaza, descreve uma situação de “fome extrema”, com exaustão generalizada e riscos ao buscar ajuda. Ela relata que seu marido foi baleado ao tentar obter suprimentos e que hospitais recebem dezenas de feridos diariamente.
Logística e entraves à coleta de suprimentos
O Cogat, órgão israelense responsável pela logística, informou que 70 caminhões foram descarregados e mais de 150 recolhidos por organizações humanitárias, mas mais de 800 aguardam coleta. A ONU ressalta que seriam necessários ao menos 500 a 600 caminhões por dia para atender a população. Atrasos são agravados por dificuldades de autorização, hostilidades, estradas danificadas, saques e falta de combustível. A ONU também destaca a falta de garantias de segurança para palestinos que tentam acessar a ajuda.