Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, desmentiu o premiê israelense Benjamin Netanyahu nesta segunda-feira (28), ao afirmar que “há fome de verdade” na Faixa de Gaza. A declaração ocorre em meio ao agravamento da crise humanitária no enclave, onde, segundo o Ministério da Saúde controlado pelo Hamas, dezenas já morreram de desnutrição nas últimas semanas.
Trump também anunciou planos para criar centros de alimentação em Gaza, com apoio de países aliados, mas sem detalhar quais nações participariam. A fala representa uma mudança na postura oficial dos EUA sobre a atuação de Israel no conflito.
Crise humanitária em Gaza
O agravamento da fome em Gaza foi evidenciado pela morte de 127 pessoas por desnutrição desde o início da guerra, incluindo 85 crianças, segundo o Ministério da Saúde do território. No sábado, uma bebê de cinco meses morreu de desnutrição aguda grave no Hospital Nasser, em Khan Younis. O Crescente Vermelho Egípcio informou o envio de mais de 100 caminhões com 1.200 toneladas de alimentos ao sul de Gaza neste domingo, via passagem de Kerem Shalom.
A ONU descreveu a situação como um “show de horrores”, enquanto mais de 100 ONGs denunciam “fome em massa”. Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, relatou: “As pessoas em Gaza não estão nem mortas nem vivas, são cadáveres ambulantes”. O World Food Program afirmou que quase um terço da população palestina “não come durante dias seguidos”.
O governo Netanyahu responsabiliza a ONU e o Hamas por impedir a chegada de alimentos. Israel restringiu a distribuição de ajuda para evitar que caia nas mãos do Hamas e culpa a ONU por ineficiências, apesar de ter proibido a atuação de ONGs no território.
Ajuda internacional e pausas humanitárias
Após críticas internacionais, Israel estabeleceu uma pausa humanitária e corredores para entrada de ajuda. Caminhões com alimentos entraram pelo segundo dia consecutivo nesta segunda-feira (28), vindos do Egito pela passagem de Rafah. Segundo a Cogat, órgão do Ministério da Defesa de Israel, mais de 120 caminhões foram distribuídos pela ONU e ONGs, e outros 180 aguardam recolhimento.
O Exército israelense anunciou suspensão diária das atividades militares em áreas específicas de Gaza das 10h às 20h (horário local), para permitir a passagem segura de comboios de alimentos e medicamentos. As negociações por cessar-fogo, mediadas em Doha, estão interrompidas.
Repercussão internacional e medidas emergenciais
Trump, ao contradizer Netanyahu, afirmou: “Com base no que vejo na televisão, aquelas crianças parecem muito famintas. Estamos enviando muito dinheiro e comida, e outras nações também estão começando a ajudar. Quero que Israel se certifique de que as pessoas recebam comida”. Ele prometeu criar centros de alimentação em Gaza, mas sem detalhar a implementação ou os países envolvidos.
Em encontro com o premiê britânico Keir Starmer, Trump reforçou a necessidade de acesso sem barreiras à comida: “Hoje em dia elas veem a comida a uma distância, e há cercas e nem conseguem chegar a ela. Está uma loucura por lá”. Starmer classificou as imagens de crianças famintas como “revoltantes” e defendeu um cessar-fogo. O Reino Unido anunciou plano para evacuar crianças feridas e reforçar a entrada de ajuda humanitária.
Israel retomou o envio de alimentos por aviões e divulgou vídeo do primeiro lançamento. Desde maio, o apoio está concentrado na Fundação Humanitária de Gaza, criticada pela ONU. A guerra, iniciada em 7 de outubro de 2023 após ataque do Hamas, já matou quase 60 mil palestinos e mais de 1.200 israelenses, além de deslocar quase toda a população de Gaza.