Uma instabilidade global no sistema de GPS atingiu os aviões da linha E2, fabricados pela Embraer, e obrigou a Azul a mexer na operação nesta terça-feira (22) e nesta quarta-feira (23).
Em comunicado, a companhia disse que adotou medidas de precaução que podem resultar em ajustes na malha e nos horários de alguns voos. No Aeroporto Internacional de Brasília, passageiros relataram cancelamentos e filas. Em Viracopos, em Campinas, principal hub da Azul, voos também foram cancelados na terça-feira (22), segundo apuração do g1.
Por que só a Azul sentiu a falha
A família E2 é a geração mais recente dos jatos comerciais da Embraer e, no Brasil, voa apenas sob as cores da Azul — uma exclusividade que se mantém desde 2018, quando foi feito o último pedido do modelo no país antes de a Latam fechar um acordo bilionário com a fabricante em 2025.
Foi isso que concentrou o estrago em uma única empresa. A Latam afirmou não ter registrado anormalidade em seus voos: o primeiro E195-E2 pintado com as cores da companhia foi apresentado em junho, mas o modelo só passa a integrar a frota em dezembro. A Gol informou que não opera aeronaves da linha.
A ligação entre a Azul e o modelo remonta ao início da operação comercial do E195-E2: a companhia foi a primeira aérea do mundo a recebê-lo, em 2019, e chegou à marca de 50 unidades na frota neste mês de setembro. Ainda em setembro, a Embraer entregou o 2.000º E-Jet produzido pela empresa — justamente um E195-E2 destinado à Azul.
Ao todo, a instabilidade cancelou mais de 80 voos da Azul entre a terça-feira (22) e a quarta-feira (23) e afetou mais de 8 mil passageiros, segundo a companhia. Em Viracopos, os cancelamentos da terça somaram 18 voos. Já no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins (MG), a Azul cancelou 15 chegadas e 15 partidas no mesmo dia — 30 operações ao todo —, com novos cancelamentos nesta quarta-feira (23) refletindo o reajuste feito na malha aérea.
Fora do Brasil, a instabilidade também provocou registros de impacto em aeronaves da família E2 operadas por companhias aéreas estrangeiras, segundo apuração do Poder360 — um indício de que a falha está no equipamento de GPS, e não na operação da Azul.
Procurada, a Embraer inicialmente não havia se posicionado sobre a instabilidade, mas, em resposta à Gazeta do Povo, informou que acompanha a situação de perto junto aos operadores e ao fabricante do sistema de GPS e que a ocorrência não compromete a segurança de voo. Segundo a fabricante, a frota global de jatos E2 conta com sistemas e procedimentos de navegação capazes de operar com segurança mesmo em condições de instabilidade no GPS, em conformidade com as exigências das autoridades de aviação civil — o problema pode afetar a programação operacional das companhias aéreas, mas não a segurança das operações. A instabilidade foi identificada na recepção do sinal de GPS pelas aeronaves, e a Honeywell, fabricante do equipamento instalado nos jatos afetados, informou que avalia o problema.
A instabilidade ocorre em um momento de forte demanda pelos aviões da fabricante: no segundo trimestre deste ano, a Embraer entregou 65 aeronaves e registrou receita recorde de R$ 11,3 bilhões. No primeiro semestre, foram 109 aviões entregues, cerca de 20% a mais que no mesmo período de 2025, e a carteira de pedidos atingiu o recorde de US$ 34,5 bilhões — o sétimo trimestre consecutivo de recordes para a companhia.
Na mesma nota, a Azul informou que os passageiros atingidos recebem a assistência prevista na Resolução 400 da Anac e pediu que os clientes confiram o status da reserva nos canais oficiais antes de sair de casa rumo ao aeroporto. A Anac, por sua vez, informou que monitora a situação junto à fabricante e aos operadores das aeronaves e reforçou que passageiros afetados por alterações nos voos devem receber as informações e a assistência previstas nas regras do transporte aéreo.
Brasília sem previsão de retomada
No aeroporto da capital federal, o cenário era de indefinição. Por volta das 20h30, ainda não havia informação sobre se os voos seriam retomados na mesma noite ou remarcados para outro dia — justamente o tipo de vácuo que transforma um problema técnico em fila de balcão.
A dúvida se estendeu para o dia seguinte: a Azul confirmou novos ajustes e cancelamentos também nesta quarta-feira (23), sinal de que a instabilidade no sistema de GPS não foi resolvida da noite para o dia.
A companhia enquadrou a decisão como preventiva e reforçou que medidas operacionais desse tipo são tomadas com foco na segurança das operações. Na prática, isso significa que os ajustes partiram da própria empresa, e não de uma determinação externa.
O episódio também escancara um ponto sensível da aviação brasileira: com uma só operadora do E2 no país, qualquer instabilidade que atinja esse equipamento recai inteira sobre a malha de uma única companhia. A chegada dos jatos à frota da Latam, prevista para dezembro, muda essa conta a partir do fim do ano.