O governo Lula analisa três caminhos para responder às tarifas anunciadas por Trump, previstas para entrar em vigor em 1º de agosto. Entre as opções, estão diversificar parcerias comerciais, explorar o impacto político das tarifas e, se necessário, aplicar retaliações econômicas com base na Lei de Reciprocidade Econômica.
O governo ainda não definiu quais setores americanos podem ser afetados nem quando anunciará eventuais medidas. A prioridade é proteger setores estratégicos brasileiros e evitar prejuízos à indústria nacional.
Estratégias em análise
Diversificação de parcerias comerciais
Uma das principais alternativas consideradas pelo governo é intensificar negociações de acordos comerciais já em andamento ou iniciar novas tratativas. O objetivo é ampliar o leque de clientes para produtos brasileiros, reduzindo o impacto das perdas de exportação para os Estados Unidos. Entre os mercados em foco estão União Europeia, Canadá, Austrália, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Indonésia.
Os Estados Unidos são atualmente o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, o comércio bilateral chegou a US$ 80 bilhões (R$ 443 bilhões), mas, nos últimos 15 anos, os americanos acumularam superávit de US$ 410 bilhões sobre o Brasil.
O acordo Mercosul-União Europeia, que prevê um mercado comum de 700 milhões de pessoas, pode representar um incremento de até R$ 37 bilhões nas transações brasileiras até 2044, mas depende de aprovação do Parlamento Europeu e do Conselho da União Europeia. França resiste ao acordo, enquanto Alemanha, Espanha e Portugal já manifestaram apoio. A expectativa é de definição até o fim do ano, quando termina a presidência brasileira do Mercosul.
Outro acordo próximo de ser concluído é com a EFTA (Islândia, Noruega, Liechtenstein e Suíça), com potencial de aumentar o PIB brasileiro em US$ 2,69 bilhões (R$ 14,9 bilhões) até 2044. Também há conversas com o Canadá, impulsionadas após o anúncio das tarifas americanas.
Disputa de narrativa e desgaste político
O governo aposta que o anúncio das tarifas por Trump pode gerar desgaste à oposição e fortalecer o discurso nacionalista de Lula. A repercussão negativa já mobilizou entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que criticou publicamente a medida. Nas redes sociais, figuras como Eduardo Bolsonaro defenderam as tarifas, mas também receberam críticas.
O governo planeja atuar fortemente nas redes sociais para dominar a narrativa sobre o tema, buscando transformar a questão em vantagem política, especialmente diante das eleições de 2026.
Possíveis retaliações e impactos econômicos
Se as estratégias de negociação e disputa de narrativa não surtirem efeito, o governo não descarta retaliar os Estados Unidos com tarifas sobre produtos ou serviços de empresas americanas. A Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em abril, autoriza o governo federal a adotar tais medidas contra países que imponham barreiras a produtos brasileiros.
Setores como patentes farmacêuticas, agrícolas, royalties audiovisuais e remessas de dividendos de multinacionais americanas estão sendo avaliados como possíveis alvos. O governo, porém, busca evitar prejuízos a setores estratégicos brasileiros, como a indústria aeronáutica, que depende de importações dos EUA para produzir aeronaves exportadas inclusive para o próprio mercado americano.
O prazo considerado para uma resposta é 1º de agosto, quando as tarifas americanas devem entrar em vigor, mas o governo pode demorar mais para reagir, conforme a evolução das negociações e o impacto das medidas.