A ministra do STF Cármen Lúcia reconheceu, nesta segunda-feira (13), que a Corte atravessa um momento de forte tensão e cobrança pública sem precedentes.
Durante palestra na Fundação FHC, em São Paulo, ela defendeu que o tribunal precisa ampliar transparência e comunicação com a sociedade — e admitiu que mudanças ainda estão por vir.
Ao descrever o cotidiano da Corte, Cármen Lúcia recorreu à imagem de uma “avalanche de atividades” para explicar a dificuldade de os magistrados responderem, com a agilidade esperada, às demandas da população. O acúmulo de processos e a pressão sobre cada decisão, segundo ela, tornam o ambiente ainda mais complexo.
A ministra também respondeu a críticas diretas à sua atuação. “Eu não cometo irregularidades no exercício do cargo”, afirmou. Para ela, suas decisões são fundamentadas estritamente na lei — e o questionamento público não altera essa premissa.
Abertura como resposta à crise
Sobre transparência, Cármen Lúcia foi além da defesa pessoal e propôs uma mudança de postura para toda a instituição. “É preciso mesmo que saia, tem que saber como sair, para onde sair e como é que eu torno isso transparente”, disse, referindo-se à necessidade de o STF explicar seus atos à sociedade de forma proativa.
“As minhas agendas são públicas. Eu acho que quanto mais se der essa transparência, essa explicação, tanto melhor para o Poder Judiciário, para o Supremo Tribunal Federal”, completou a ministra.
Ela reconheceu que o tribunal não pode manter a mesma dinâmica dos anos anteriores. Debates internos sobre mudanças já ocorrem há algum tempo, mas ponderou que há pontos que ainda precisam ser aperfeiçoados na relação da Corte com o público.
A fala de Cármen Lúcia sobre transparência no STF ocorre no centro de um processo de reforma institucional mais amplo. Ela própria está à frente da elaboração do anteprojeto do código de ética do STF, cuja aprovação o presidente Edson Fachin espera concluir ainda em 2026 — o que torna seu diagnóstico parte do mesmo movimento que ela tenta formalizar.
O contexto também não é isolado. Menos de um mês antes da palestra na Fundação FHC, Fachin já havia convocado toda a magistratura a manter conduta irrepreensível dentro e fora dos tribunais, defendendo autocontenção institucional como resposta à crise de credibilidade.
O discurso convergente entre os dois ministros sinaliza um esforço coordenado do STF para reconstruir capital político e simbólico em um momento em que a Corte enfrenta críticas crescentes de diferentes espectros. A questão que permanece aberta é se as ações concretas — como o código de ética — virão na velocidade que o momento exige.
