O Itamaraty negou nesta sexta-feira (24) os pedidos de visto de dois diplomatas dos Estados Unidos que planejavam viajar ao Brasil às vésperas das eleições presidenciais de outubro.
Riley M. Barnes e Samuel Samson foram apontados pelo jornal The Washington Post como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
A decisão foi tomada antes da publicação da reportagem, depois que o governo brasileiro classificou a missão como “inusitada”.
Observadores, não pressão política
Segundo fontes da diplomacia, o Brasil tem tradição de receber observadores internacionais nas eleições, mas a avaliação é que Barnes e Samson não se enquadravam nesse papel: na prática, os dois teriam “outro papel” na missão.
Diplomatas e assessores presidenciais apontam que a decisão do secretário de Estado Marco Rubio de enviar a missão coincide com o momento em que Flávio e Eduardo Bolsonaro passaram a levantar dúvidas públicas sobre as urnas eletrônicas, o que reforça a leitura de uma ação coordenada para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.
Pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro se reuniu na semana anterior com representantes de cerca de 40 países e repetiu a acusação de que o Brasil usa urnas fabricadas por uma empresa venezuelana suspeita de fraudes, informação já desmentida pelo TSE. O senador nega questionar o sistema eleitoral, mas defendeu o envio de observadores internacionais às eleições de outubro.
STF chama tentativa de missão de “escandalosa”
Nos bastidores do Supremo Tribunal Federal, ministros classificaram a tentativa de enviar os dois funcionários como “escandalosa” e “inusitada”. Para integrantes da Corte, a iniciativa representaria uma interferência externa em um tema de competência exclusiva das instituições brasileiras, e magistrados defendem uma reação formal do TSE ao episódio.
O caso é o capítulo mais recente de uma sequência de atritos entre Brasília e Washington sobre o tema. Dias antes, como mostrou o Tropiquim, a missão dos diplomatas americanos já havia sido revelada, com o Washington Post apontando Riley M. Barnes e Samuel Samson como os responsáveis pela estratégia para questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras.
Também nos últimos dias, Flávio Bolsonaro repetiu a diplomatas de quase 50 países a acusação de que as urnas teriam origem na venezuelana Smartmatic, informação negada pelo TSE desde 2020. A negativa de visto ainda ocorre poucos dias depois de o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, dizer que está “atento” à integridade eleitoral no Brasil, em resposta a um desafio público de Lula.
