Os registros de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram 67,3% em 2025 no Brasil, aponta o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Foram 5.226 ocorrências no ano passado, ante 3.161 em 2024, o maior salto entre todos os indicadores de violência contra crianças e adolescentes analisados pela publicação.
Como os números se dividem
Os dois crimes passaram a existir formalmente no Código Penal em 2024, pela Lei nº 14.811/2024, que tipificou a “intimidação sistemática” (bullying) e a “intimidação sistemática virtual” (cyberbullying). Separados por tipo, o crescimento ficou acima de 60% nos dois casos: os registros de bullying subiram 68,2%, de 2.736 para 4.549 ocorrências, e os de cyberbullying avançaram 61,4%, de 425 para 677.
Juntos, os crimes somaram uma taxa de 11,7 registros por 100 mil crianças e adolescentes em 2025, contra 7,0 no ano anterior. A violência entre pares se concentra a partir dos 10 anos: as maiores taxas de bullying aparecem entre crianças de 10 a 13 anos (21,0 por 100 mil) e adolescentes de 14 a 17 anos (19,9 por 100 mil). Já o cyberbullying atinge seu pico um pouco mais tarde, aos 14 anos, acompanhando a maior presença de adolescentes nas redes sociais.
Para Cauê Martins, sociólogo e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, parte do salto reflete a assimilação da nova lei pelos sistemas de registro e pela sociedade — não somente um aumento da violência em si. Segundo ele, os boletins de ocorrência tendem a captar apenas os casos mais graves ou persistentes, que extrapolam a capacidade de resposta das escolas.
Apesar do crescimento nos registros policiais, o Anuário destaca que eles captam apenas uma fração do problema. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), do IBGE, mostram que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam já ter sofrido bullying na escola — um universo muito maior que as pouco mais de cinco mil ocorrências registradas pelas polícias em 2025.
Diferenças entre estados
O avanço dos registros varia bastante entre os estados. São Paulo mais que dobrou os casos de bullying (de 599 para 1.396, alta de 135,9%) e de cyberbullying (de 69 para 145, alta de 112,7%). Já estados que partiam de bases pequenas em 2024, como Maranhão e Mato Grosso do Sul, tiveram os maiores saltos proporcionais — o que reforça a hipótese de que parte da expansão decorre da consolidação dos novos sistemas de notificação.
O pico de cyberbullying aos 14 anos acompanha justamente a faixa etária com maior presença nas redes sociais, enquanto o uso de internet entre crianças de 10 a 13 anos é a única a recuar no país, puxado pela restrição de celulares nas escolas. Não por acaso, 88% dos gestores escolares já associavam a proibição do celular em sala de aula à redução de conflitos e agressões digitais, incluindo o cyberbullying, segundo pesquisa do MEC sobre a lei que restringe o uso de aparelhos nas escolas.
