O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, recorde desde a criação do tipo penal em 2015. A alta de 4% equivale a quatro mulheres assassinadas por dia, aponta o Anuário da Segurança Pública divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O dado contrasta com a queda geral da violência: as mortes violentas caíram 8%, para 40.775 casos, o menor número desde 2012, com taxa nacional abaixo de 20 por 100 mil habitantes pela primeira vez.
Violência doméstica cresce mesmo com queda geral da criminalidade
O levantamento mostra que o avanço dos feminicídios não é um caso isolado. Também subiram, em 2025, o stalking (30%), a violência psicológica (17%) e o descumprimento de medidas protetivas (17%). Para cada feminicídio consumado, o anuário contabilizou três tentativas do mesmo crime.
Juliana Brandão, coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que a alta reflete tanto o amadurecimento da tipificação penal quanto “sinais consistentes de aumento real” da violência de gênero. Segundo ela, o conjunto dos indicadores aponta para uma “piora em relação à defesa dos direitos das mulheres”, puxada por padrões culturais de dominação masculina e pela fragilidade da rede de proteção às vítimas.
Esse cenário já vem sendo reconhecido fora do campo penal: um levantamento recente identificou mais de 2 mil decisões judiciais que já tratam a misoginia como agravante em casos de feminicídio e violência doméstica, mesmo sem previsão própria no Código Penal.
Queda nas mortes violentas não inclui feminicídio e ações policiais
As 40.775 mortes violentas intencionais de 2025 representam o menor patamar desde 2012, resultado da redução em 20 das 27 unidades federativas — com destaque para Amazonas (32,5%), Rio Grande do Sul (25,7%) e Mato Grosso (23,2%). Ainda assim, o pesquisador Marques pondera que “o feminicídio, que cresceu, e as mortes decorrentes de intervenção policial” seguem como os pontos mais desafiadores dessa curva de queda.
O anuário também registra alta nos crimes de abuso sexual infantil e no bullying, além de uma população prisional de 964 mil pessoas no país.
Os efeitos do recorde de feminicídios já aparecem em outras frentes da vida das famílias atingidas. O INSS retomou, em julho, a análise de mais de 400 pedidos de pensão para crianças que perderam a mãe vítima desse crime. Fora dos registros oficiais, histórias de mulheres que romperam relacionamentos abusivos também se acumulam: parte delas passou a atuar como motorista de aplicativo em busca de autonomia financeira e recomeço.
