O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no dia 23, revelou que 34% dos autores de crimes de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil no Brasil são adolescentes.
Entre as vítimas, 84,2% são meninas e 78,3% têm entre 12 e 17 anos. Os registros desse tipo de crime cresceram 25% em 2025 — primeira vez que o anuário mediu esse fenômeno.
Autoria concentrada entre adolescentes e homens
Segundo o estudo, em 86,5% dos registros havia apenas autores do sexo masculino, enquanto casos com autoria exclusivamente feminina somaram 9,1% e autoria múltipla, 4,4%. Para Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutor em Sociologia pela USP, o dado sobre a idade dos autores revela uma característica própria desse crime: tanto vítimas quanto agressores costumam ser adolescentes.
O envolvimento de adolescentes como autores de violência não é fenômeno isolado: levantamento da Vara da Infância do Rio de Janeiro já havia mostrado que casos de violência de gênero cometidos por menores saltaram 600% desde 2019, com agressores cada vez mais jovens e expostos à machosfera digital.
Quanto às vítimas, a incidência cresce na entrada da adolescência: 84,2% são meninas e 78,3% têm entre 12 e 17 anos. Em 2025, foram registrados 4.063 casos envolvendo vítimas de até 17 anos, alta de 25,3% frente aos 3.280 de 2024. Entre jovens de 18 e 19 anos, os registros passaram de 181 para 265, crescimento de 49%. O dado se encaixa no quadro geral traçado pelo mesmo anuário: seis em cada dez vítimas de estupro registradas no Brasil tinham menos de 14 anos, revelando que a violência sexual no país é, antes de tudo, uma violência contra crianças.
Violência doméstica também avança
O anuário identificou aumento nos crimes cometidos dentro de casa contra crianças e adolescentes. Os registros de maus-tratos somaram 38.986 ocorrências em 2025, alta de 14,6% frente a 2024 e de 106,1% em relação a 2021 — mais da metade das vítimas (59,1%) tinha entre 0 e 9 anos. Os casos de abandono de incapaz chegaram a 14.815, crescimento de 18,5%, enquanto a lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra vítimas de até 17 anos subiu de 20.911 para 21.811 registros.
Para Martins, os números refletem a permanência de uma cultura que usa a violência física como forma de disciplina, mesmo após os avanços trazidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Os pesquisadores apontam que a expansão das tecnologias digitais mudou as dinâmicas da violência sexual contra crianças e adolescentes e cobram avanço na regulação das big techs: “a demora na construção de mecanismos regulatórios permitiu a consolidação de espaços virtuais marcados pela difusão de violências persistentes contra crianças, adolescentes e mulheres”, conclui o relatório. O mesmo levantamento também registrou salto de 67% no bullying e cyberbullying contra crianças em 2025, retrato de um ambiente digital cada vez mais hostil ao público infantojuvenil.