Brasileiros em busca de emagrecimento rápido têm recorrido a canetas vendidas ilegalmente, muitas sem registro sanitário e, em alguns casos, produzidas com substâncias experimentais. Médicos alertam que o uso pode provocar efeitos adversos graves e ainda imprevisíveis no organismo.
Um paciente relatou à reportagem que comprou uma caneta comercializada como retatrutida, ignorando a orientação médica contra medicamentos sem aprovação da Anvisa, e horas depois precisou de atendimento hospitalar por tremores, hipoglicemia e taquicardia.
Por que as canetas clandestinas são tão perigosas
Médicos explicam que o principal problema das canetas vendidas fora do circuito regulado é a ausência de controle sobre fabricação, pureza e esterilidade das substâncias. Sem saber o que está de fato dentro do produto ou em que condições ele foi produzido e armazenado, torna-se impossível prever os efeitos no organismo.
Segundo especialistas, além das reações imediatas — como as sofridas pelo paciente que precisou de atendimento hospitalar —, o uso pode desencadear alterações graduais que comprometem órgãos vitais, incluindo fígado, rins e coração. Queda progressiva de cabelo, mudanças na coloração da pele e impotência sexual também estão entre os efeitos relatados.
Compostos de degradação encontrados em análise da Unicamp
Uma análise laboratorial feita pela Unicamp em uma caneta comprada no mercado clandestino identificou alterações nas moléculas da amostra. Além da substância indicada na embalagem, os pesquisadores encontraram compostos resultantes da degradação do medicamento, que podem ter efeitos tóxicos ainda mais relevantes do que o próprio princípio ativo.
Também não há garantia de que a concentração da substância corresponda à informada no rótulo, nem de que o produto tenha sido armazenado corretamente durante o transporte — fatores que aumentam o risco para quem aplica a caneta sem supervisão médica. O mercado clandestino cresce mesmo com uma alternativa legal e mais barata já nas prateleiras: desde junho, a EMS vende o Ozivy, primeira caneta nacional de semaglutida, por R$ 452.
Fiscalização e alternativas legais
Para médicos, a popularização das canetas ilegais está diretamente ligada à pressão por resultados rápidos e ao crescimento da divulgação desses produtos nas redes sociais. Mesmo sem aprovação sanitária, versões experimentais e clandestinas continuam sendo vendidas pela internet e em estabelecimentos no Paraguai, de onde entram ilegalmente no Brasil.
O caso se soma a outras ações recentes da Anvisa contra o mercado de emagrecimento irregular, como o banimento da plataforma Voy, que oferecia acompanhamento para obesidade sem autorização de funcionamento. Um dia antes, a Anvisa já havia alertado para outro procedimento popularizado nas redes sociais sem comprovação científica: a soroterapia intravenosa, também associada a riscos quando feita sem indicação médica.
A orientação dos especialistas é que pacientes utilizem apenas medicamentos registrados pela Anvisa e prescritos por profissionais de saúde. Quando a origem e a qualidade da substância são desconhecidas, o risco vai muito além da falta de eficácia: o paciente pode estar colocando a própria saúde em jogo sem sequer saber o que está aplicando no organismo.
