A retatrutida promete perda média de 28,3% do peso em estudos de fase 3, mas não tem registro em nenhuma agência sanitária do mundo. O único caminho legal para recebê-la é participar dos estudos clínicos da Eli Lilly, farmacêutica responsável pela molécula.
Mesmo assim, canetas anunciadas como retatrutida já circulam em sites, redes sociais e apreensões na fronteira de Foz do Iguaçu. Só no 1º trimestre de 2026, a Receita Federal e a Anvisa retiveram mais de R$ 11 milhões em produtos vindos do Paraguai — mais que todo o apreendido em 2025.
Por que a retatrutida ainda não pode ser vendida
Em nota enviada nesta sexta-feira (24), a Eli Lilly confirmou que a retatrutida está em fase 3 de estudos clínicos e “ainda não foi avaliada ou aprovada por nenhuma autoridade regulatória no mundo” — ou seja, “ninguém pode comercializar o produto”. A farmacêutica afirma que a molécula só será considerada para submissão regulatória após a conclusão e avaliação completa dos estudos.
Segundo a Anvisa, antes de pedir registro em qualquer país, a Lilly precisa definir a dose com melhor relação entre benefício e risco, mapear efeitos adversos raros, indicar contraindicações e comprovar que o efeito sobre o peso se mantém ao longo do tempo. Depois disso, as agências ainda avaliam composição, processo de fabricação e controle de qualidade da planta produtora — etapas que não foram cumpridas.
Um agonista triplo
A retatrutida pertence à mesma família de remédios que popularizou o Ozempic, o Wegovy e o Mounjaro, mas age sobre três receptores ao mesmo tempo — GLP-1, GIP e glucagon —, o que amplia o gasto de energia do organismo. No estudo de fase 3 TRIUMPH-1, com mais de 2,3 mil adultos com obesidade, a dose mais alta (12 mg) levou a uma perda média de 28,3% do peso em 80 semanas, e quase metade dos pacientes perdeu ao menos 30% do peso inicial.
Um segundo estudo, publicado em junho na revista The Lancet com 930 pacientes com diabetes tipo 2, mostrou reduções expressivas na apneia do sono e na dor da osteoartrite no joelho, além de melhora em indicadores cardiovasculares. Os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais, e o abandono do tratamento cresceu junto com a dose.
Riscos dos produtos falsificados
Fora dos estudos oficiais, a retatrutida não é fabricada industrialmente em nenhum país. Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta que a origem do composto vendido ilegalmente é a principal dúvida: por ser uma molécula complexa e estéril, produtos fora do controle oficial podem trazer contaminação bacteriana, impurezas e risco de reação imunológica grave. Sem cadeia de refrigeração adequada, o produto ainda pode gerar compostos tóxicos para fígado, coração e cérebro.
Os riscos não são hipotéticos: em reportagem anterior, um paciente que comprou uma caneta vendida como retatrutida precisou de atendimento hospitalar por tremores, hipoglicemia e taquicardia, e uma análise da Unicamp identificou na substância compostos de degradação não previstos no rótulo.
Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), reforça que o uso sem acompanhamento médico agrava o quadro, por faltar avaliação laboratorial e orientação sobre alimentação e hidratação. A Lilly classifica o mercado ilegal como “criminoso e perigoso” e recomenda que pacientes recorram apenas a medicamentos já registrados, como os à base de semaglutida ou tirzepatida, sempre sob avaliação médica.
