Escondidas em embalagens de salgadinhos, garrafas térmicas e até em canos de escape de motos, canetas com retatrutida pirata cruzam diariamente a fronteira entre o Paraguai e o Brasil. A molécula sequer existe no mercado oficial — em lugar nenhum do mundo.
Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras no Paraná já superam, em valor, todo o ano de 2025: mais de R$ 11 milhões em três meses. Em Foz do Iguaçu, as canetas são o segundo produto mais apreendido do ano, atrás apenas de celulares.
O mercado de emagrecedores injetáveis movimentou cerca de R$ 12 bilhões no Brasil no ano passado. O preço proibitivo dos produtos legais — e a promessa de emagrecimento rápido — empurra brasileiros para o risco.
Molécula experimental vira febre no contrabando fronteiriço
A retatrutida está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly e ainda se encontra na terceira fase de testes clínicos — a última etapa antes de um eventual pedido de aprovação às agências regulatórias. A empresa projeta perda de até 28,7% do peso corporal em cerca de 15 meses, índice superior ao da semaglutida (15%) e ao da tirzepatida (em torno de 20%).
O diferencial está no mecanismo de ação: enquanto a semaglutida atua em um receptor hormonal e a tirzepatida em dois, a retatrutida age em três — ampliando o impacto sobre metabolismo, apetite e digestão. A Eli Lilly reforçou que a molécula só está disponível em seus ensaios clínicos e que versões não originais “podem ser perigosas — em alguns casos, fatais”. O produto vendido no Paraguai, segundo a empresa, é “proveniente de fornecedores estrangeiros ilegais”.
Riscos amplificados pelo transporte clandestino
Para a endocrinologista Caroline Janovsky, da Unifesp, o perigo vai além da composição desconhecida. As canetas exigem refrigeração entre 4°C e 9°C. Quando transportadas dentro de canos de escape ou embalagens de salgadinhos, a temperatura eleva o risco de contaminação bacteriana.
“Se a caneta estiver contaminada e esquentar, você está fazendo um meio de cultura de bactérias. E aí você vai injetar direto no seu corpo, o que pode levar a complicações graves”, alerta a médica. Casos de problemas sérios de saúde e mortes ligados ao uso de canetas paraguaias foram registrados nos últimos meses.
Parte das marcas mais apreendidas — como Gluconex e Tirzedral, já formalmente proibidas pela Anvisa desde meados de abril por não terem fabricante rastreável nem controle de composição — chegam às mãos de consumidores sem qualquer aviso de risco. A agência também veta Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec. Até a Dinavisa, equivalente paraguaio da Anvisa, emitiu alerta em junho de 2025 ordenando a interrupção imediata do uso.
Em Ciudad del Este, farmácias exibem anúncios em português, ampolas infláveis gigantes recepcionam turistas de compras e atendentes orientam compradores a “esconder bem na mala”. A venda ocorre sem receita médica e sem limite de quantidade.
Crime organizado assume o controle do tráfico de canetas
O delegado da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, Emerson Rodrigues, afirma que as canetas se tornaram a “bola da vez” no contrabando paraguaio. “Temos apreensões na casa de milhares de canetas quase que diariamente. São indícios bem fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo”, diz.
A vantagem logística é clara: ao contrário do cigarro, as canetas são pequenas e dispensam grandes comboios de veículos. “É um produto pequeno, não requer uma logística grande”, explica Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita em Foz do Iguaçu. A Operação Heavy Pen, deflagrada pela Polícia Federal com 45 mandados de busca em 11 estados, já havia mapeado a cadeia ilegal — da importação fraudulenta de insumos até a distribuição de produtos sem registro, incluindo a retatrutida. Em março, uma única operação resultou em carga avaliada em R$ 2 milhões.
Preço alto no Brasil e patentes alimentam a demanda
O motor do contrabando é econômico. O Mounjaro — única marca de tirzepatida autorizada no Brasil — custa a partir de R$ 1,5 mil na dose mais baixa. No Paraguai, canetas similares saem por R$ 300, e ampolas chegam a R$ 35. A patente da tirzepatida só deve cair em 2033; a da semaglutida expirou em março de 2026, mas analistas do setor não preveem queda imediata nos preços ao consumidor.
A dimensão do problema ficou evidente quando a Anvisa revelou que o Brasil importou insumos suficientes para 20 milhões de doses de tirzepatida manipulada — dado que acelerou o endurecimento das regras e antecipou o cerco à fronteira paraguaia. No Congresso, tramita em fase inicial projeto de lei para suspender temporariamente a patente da tirzepatida e ampliar o acesso ao tratamento da obesidade. Quem for investigado e condenado pelo transporte ilegal das canetas pode responder por crime hediondo contra a saúde pública, com penas entre 10 e 15 anos de prisão.
