Saúde

Buscas por canetas emagrecedoras ilegais crescem 6% por semana no Brasil

Mato Grosso do Sul concentra 60% das apreensões enquanto o interesse online segue em patamar recorde
Sede da Anvisa em Brasília: órgão intensifica fiscalização de canetas emagrecedoras ilegais no Brasil

Um estudo da Fiocruz mapeou, entre maio de 2025 e maio de 2026, o crescimento das buscas no Google por cinco canetas emagrecedoras ilegais vendidas no Brasil: T.G., Tirzec, Lipoless, Lipoland e Retatrutida.

As buscas cresceram, em média, 6,29% por semana entre junho de 2025 e janeiro de 2026, quando o interesse se estabilizou em patamar elevado — reflexo da procura por alternativas sem registro na Anvisa, que podem colocar a saúde em risco.

Mato Grosso do Sul concentra o epicentro do mercado ilegal

A pesquisa identificou diferenças regionais expressivas no volume de buscas. Mato Grosso do Sul registrou o maior índice proporcional, com 88,9 pesquisas por milhão de habitantes, seguido por Mato Grosso (48,8), Distrito Federal (39,0), Alagoas (33,2) e Acre (29,4). Amapá (1,2), São Paulo (2,5), Rio de Janeiro (3,6) e Minas Gerais (4,0) tiveram os menores índices.

O padrão de buscas tem correspondência direta com a atuação das autoridades: segundo a Polícia Federal, o estado sul-mato-grossense concentra cerca de 60% das apreensões de medicamentos sem autorização sanitária no país, funcionando como uma das principais rotas de entrada e distribuição.

Os números da Receita Federal reforçam a escalada. As apreensões de “canetas emagrecedoras” saltaram de 2,7 mil unidades em 2024 para 32 mil em 2025 — e já somam 25 mil apenas nos dois primeiros meses de 2026. Desde 2024, o total retido soma cerca de R$ 51 milhões em produtos.

Parte dessa migração para o mercado paralelo tem raízes econômicas: as versões aprovadas ainda não estão disponíveis pelo SUS, e o custo mensal do tratamento original pode superar R$ 3 mil, o que aprofunda a desigualdade no acesso e empurra pacientes sem renda para produtos contrabandeados.

Farmacêuticas e agências alertam para riscos à saúde

Em julho de 2025, a Eli Lilly alertou para a circulação de versões falsificadas ou não aprovadas de medicamentos à base de tirzepatida — entre eles Lipoless, T.G. e Tirzec. Segundo a farmacêutica, esses produtos não são equivalentes ao Mounjaro®, não têm aprovação sanitária e podem conter dosagens incorretas, impurezas ou nenhum princípio ativo.

No caso da Retatrutida, a Anvisa já havia alertado que a substância segue em fase de pesquisa clínica e não tem aprovação para uso terapêutico em nenhum país — o que torna irregular qualquer caneta vendida sob esse nome. No Brasil, a agência investiga eventos adversos e mortes associadas a produtos sem registro; no Reino Unido, já foram notificados casos de pancreatite e óbitos ligados a itens semelhantes vendidos em redes sociais.

Os efeitos práticos desse mercado já aparecem em relatos clínicos: análises laboratoriais e médicos têm documentado queda de cabelo, hipoglicemia, taquicardia e danos a órgãos em pacientes que usaram canetas do mercado clandestino sem supervisão.

Para os autores do estudo, o comportamento de busca funciona como um sistema complementar de vigilância sanitária, capaz de sinalizar riscos emergentes antes que apareçam nos registros oficiais — inclusive à medida que redes sociais passam a exibir anúncios dos próprios produtos pesquisados pelos usuários, evidenciando o papel da curadoria algorítmica na disseminação desse mercado.