Crianças de até dois anos responderam por 82% dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) registrados no Brasil em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Foram mais de 35 mil notificações — das quais quase 24 mil envolveram bebês de até seis meses.
Para frear esses números, o SUS passou a oferecer, desde novembro de 2025, a vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR) no Calendário Nacional de Vacinação da Gestante. O imunizante é aplicado a partir da 28ª semana e a proteção vai diretamente ao bebê ainda no ventre.
Como funciona a proteção passiva
A estratégia é chamada de imunização passiva: os anticorpos são produzidos pela mãe e atravessam a placenta até o bebê, garantindo defesa nos primeiros meses de vida — justamente quando o organismo ainda é mais vulnerável.
“Essa proteção dura cerca de seis meses, que é o período mais importante, porque 75% dos bebês que internam com bronquiolite têm essa idade”, explica Flávia Jacqueline Almeida, infectopediatra do Hospital Infantil Sabará. A bronquiolite é a manifestação mais comum das infecções graves pelo VSR em lactentes.
O imunizante foi aprovado pela Anvisa em 2023 e chegou primeiro ao setor privado. Sua incorporação ao SUS, em novembro de 2025, ampliou o acesso a uma proteção que, para muitas famílias, só existia como opção paga.
A preceptora Mariá Lanzotti, com 33 semanas de gestação, tomou a vacina em uma unidade de saúde na zona sul de São Paulo. Ela sabe o que está prevenindo: a filha mais velha, Analua, precisou de UTI e cirurgia de emergência ao ter uma doença respiratória aos quatro anos. “É uma tranquilidade a mais que a gente leva na gestação”, conta.
Outras vacinas no calendário da gestante
A vacina contra o VSR não é a única que protege recém-nascidos por imunização passiva. A dTpa — contra difteria, tétano e coqueluche — está no calendário desde 2014, aplicada a partir da 20ª semana. Por ser a mais consolidada, registra a maior cobertura: 85,4% em 2025.
A vacina contra Covid-19 integrou formalmente o calendário da gestante em janeiro de 2025. O impacto foi imediato: a cobertura saltou de cerca de 6,5% em 2024 para quase 55% no ano seguinte. Estudos do Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr) indicam que o imunizante reduz em 46% o risco de internação em UTI e em 80% a mortalidade entre grávidas. A vacina contra a gripe também é recomendada em qualquer momento da gestação e protege tanto a mãe quanto o bebê.
O cenário, porém, exige atenção: em 2026, o Brasil registrou mais de 500 mortes confirmadas por gripe nos primeiros cinco meses do ano, em meio a uma campanha de vacinação que atingiu menos da metade da meta prevista — reforçando que ampliar a cobertura entre gestantes é urgente, mas insuficiente isoladamente.
Grávidas têm resposta imunológica reduzida e maior risco de agravamento de doenças respiratórias. O Ministério da Saúde reforça que cada dose do calendário deve ser tomada nos prazos indicados: a soma das proteções é o que garante segurança para mãe e filho.
