Bryan Gomes de Souza Camargo tinha 13 anos quando os primeiros sintomas apareceram: dores no corpo e cansaço. Em menos de uma semana, o adolescente de Sorocaba sofreu duas paradas cardíacas e morreu, em 6 de abril, vítima de influenza.
O caso de Bryan não é isolado. O Brasil registrou 505 mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) associada ao vírus influenza entre janeiro e maio de 2026 — com 136 delas, ou 27% do total, confirmadas apenas nas últimas duas semanas do período.
A temporada de gripe deste ano chega com um agravante: a campanha nacional de vacinação encerrou em 31 de maio com apenas 38,5% de cobertura — menos da metade da meta de 90%.
Aceleração dos óbitos e aumento de casos
As 136 confirmações de morte por influenza nas últimas duas semanas de maio não significam necessariamente que os óbitos ocorreram nesse período: o número reflete também o tempo que os laboratórios levam para identificar o agente causador. Ainda assim, o ritmo preocupa especialistas.
Em 2025, o Brasil havia registrado 776 mortes por SRAG associada à influenza no mesmo intervalo de janeiro a maio — número superior ao atual. Mas o total de 2026 pode crescer: outras 1.344 mortes por SRAG ainda não tiveram a causa identificada. Além da influenza, a síndrome pode ser provocada por covid-19, rinovírus e vírus sincicial respiratório (VSR).
O número de casos também subiu: 7.749 diagnósticos de SRAG por influenza até maio deste ano, contra 6.250 no mesmo período de 2025. O Influenza A não subtipado lidera (4.892 casos), seguido por H3N2 (1.903), Influenza B (698) e H1N1 (256).
A antecipação da temporada já era esperada: em maio, a Fiocruz havia colocado a maioria dos estados em alerta para SRAG, com a influenza A liderando as causas de morte desde o início do ano — cenário que antecedeu a aceleração dos óbitos nas últimas semanas. Veja o alerta da Fiocruz sobre síndrome respiratória grave.
Por que a progressão pode ser tão rápida
A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas e Grupo Santa Joana, explica que o hospedeiro é determinante na gravidade da infecção. Crianças, idosos, pessoas com diabetes, asma ou que fazem uso de tabaco estão entre os mais vulneráveis — e foi esse o contexto que cercou o caso de Bryan.
O Influenza A preocupa mais pela capacidade de circular entre humanos e animais, como aves e suínos, favorecendo recombinações genéticas que podem gerar novas cepas. A mesma característica possibilitou pandemias como a gripe espanhola de 1918 e o H1N1 de 2009. O vírus também pode inflamar o endotélio dos vasos sanguíneos, elevando o risco de AVC e infarto.
O tratamento precoce pode ser decisivo: o oseltamivir reduz em até 52% as hospitalizações por influenza, mas só quando iniciado nas primeiras 48 horas após os sintomas — uma janela estreita que casos de progressão rápida, como o de Bryan, evidenciam de forma brutal. Entenda como o Tamiflu age contra a gripe.
Campanha vacinal encerra com resultado histórico negativo
Apenas 18,2 milhões das 47,4 milhões de doses disponíveis para o público-alvo foram aplicadas durante a campanha — crianças menores de seis anos, idosos e gestantes. A cobertura de 38,5% é a mais baixa da série histórica recente: o Brasil não atingia a meta de 90% desde 2021, mas nunca havia ficado tão abaixo do patamar mínimo desejável.
Em 2025, a campanha também não atingiu a meta: foram 40,8 milhões de doses aplicadas até junho, equivalentes a 41,28% do público-alvo. Nenhum estado conseguiu vacinar 90% dos grupos prioritários.
A médica Juliana Lapa aponta que a baixa adesão é multifatorial, mas foi intensificada pela desconfiança nas vacinas, movimento que se amplificou após a pandemia de covid-19. Ana Catarina de Melo Araújo, coordenadora-geral de imunização do Ministério da Saúde, confirmou que, mesmo com a campanha priorizando os grupos mais vulneráveis, a procura ficou muito abaixo do esperado.
A vacinação é anual porque o vírus muta constantemente e a imunidade adquirida diminui com o tempo. O imunizante trivalente do SUS protege contra duas cepas do Influenza A e uma do tipo B. Na rede privada, a partir de R$ 80, também está disponível a vacina quadrivalente — mas especialistas afirmam que a trivalente é suficiente para a maioria da população.
Desde 18 de maio, todas as pessoas em São Paulo podem se vacinar gratuitamente. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campo Grande, Belém, Palmas e Porto Velho também ampliaram o público que pode receber o imunizante pelo SUS.
