O Vaticano excomungou nesta quinta-feira (2/7) seis membros da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X após a realização de ordenações episcopais sem autorização do papa Leão XIV, na cidade suíça de Écône.
O Dicastério para a Doutrina da Fé publicou decreto estendendo a punição a todos os padres e fiéis que aderem formalmente ao grupo — agora declarados em cisma com a Igreja Católica.
Com a excomunhão, os religiosos ficam proibidos de receber sacramentos e não poderão mais celebrar casamentos válidos ou ouvir confissões. O movimento, que opera 14 capelas em quatro regiões do Brasil, representa o primeiro grande teste do pontificado de Leão XIV.
O decreto e seus efeitos
O decreto nomeia seis excomungados: os bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, responsáveis pela cerimônia de ordenação não autorizada, e os quatro padres recém-sagrados — Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.
A norma da Igreja é clara: somente o papa pode autorizar a consagração de novos bispos, preservando o vínculo institucional com os 12 apóstolos de Jesus. A Fraternidade reconheceu o veto, mas decidiu prosseguir alegando “circunstâncias excepcionais” — mesmo após apelos pessoais de Leão XIV na véspera.
Como a FSSPX chegou ao Brasil
Fundada em 1970 na Suíça pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a congregação nasceu como reação ao Concílio do Vaticano 2º (1962–1965), que liberou o uso de línguas vernáculas na missa e abriu a interpretação das Escrituras aos fiéis. Em 1988, o próprio Lefebvre foi excomungado por ordenar bispos sem aval de João Paulo 2º — o mesmo pecado agora repetido.
A entrada no Brasil está ligada à Diocese de Campos dos Goytacazes (RJ), também avessa ao concílio. Quando essa diocese reconciliou-se com o Vaticano em 2002, fiéis insatisfeitos chamaram a FSSPX para o país. O grupo passou a atuar no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul, e hoje mantém capelas em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Ceará, Piauí e Maranhão — a única região sem presença é o Norte.
O movimento reúne hoje cerca de um milhão de fiéis no mundo e conta com aproximadamente 700 padres — número pequeno frente ao universo de 1,4 bilhão de católicos globais, mas representativo do avanço do catolicismo tradicional nas últimas décadas, embalado pelo crescimento de correntes conservadoras no Brasil.
Além da própria Fraternidade, há grupos dissidentes que também rejeitam o Concílio do Vaticano 2º e não param de se dividir e multiplicar. Alguns são ativos nas redes sociais e influenciam o debate público em torno de pautas conservadoras, mesmo com número reduzido de membros.
Dez dias antes da punição, o Tropiquim havia antecipado a crise: a FSSPX anunciara publicamente que prosseguiria com as ordenações mesmo após o Vaticano avisar que a excomunhão seria inevitável.
O Vaticano, segundo pesquisadores, segue tentando promover uma reconciliação com os grupos tradicionalistas — postura que agora será testada pela primeira vez no papado de Leão XIV. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não retornou pedidos de entrevista sobre o caso.
