O Comitê de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu aprovou, na semana passada, o regulamento do euro digital — moeda de banco central desenvolvida pelo BCE que promete reduzir a dependência europeia de sistemas de pagamento americanos como Visa, Mastercard e Google Pay.
A aprovação abre caminho para as negociações finais com os governos do bloco e a Comissão Europeia. A UE quer adotar o marco legal ainda em 2026, com projeto-piloto previsto para 2027 e lançamento completo potencial em 2029.
A urgência não é apenas tecnológica. Com Trump utilizando tarifas e controles de exportação como ferramentas de pressão, a soberania monetária virou prioridade geopolítica para Bruxelas.
Por que a Europa precisa de uma moeda digital própria
Mesmo usando o euro, a União Europeia ainda depende de infraestruturas financeiras americanas para operar no dia a dia. Visa e Mastercard dominam as transações com cartão; Google Pay, Apple Pay e PayPal concentram os pagamentos digitais. Essa dependência se tornou um risco concreto à medida que Washington passou a usar instrumentos financeiros como arma geopolítica.
Trump já ameaçou tarifas de 100% sobre países que tributem serviços digitais americanos — pressão que acelerou o debate europeu sobre autonomia em pagamentos e transformou o euro digital de projeto técnico em necessidade estratégica.
Para consumidores, a moeda funcionará como carteira digital com respaldo direto do BCE: pagamentos em lojas físicas, online ou de pessoa a pessoa. O sistema também operará offline, útil em quedas de energia ou em regiões com conexão limitada.
Lições do yuan digital
A China já saiu na frente com o e-CNY. Desde os testes iniciais em 2020, mais de 230 milhões de carteiras pessoais e 18,8 milhões corporativas foram abertas. Até novembro, a moeda havia processado mais de 3,48 bilhões de transações, somando cerca de 16,7 trilhões de yuans (R$ 12,81 trilhões), segundo a agência Xinhua. Pequim agora expande o uso transfronteiriço e já permite remuneração sobre saldos — funcionalidade que o BCE descartou deliberadamente.
O BCE optou por um desenho conservador: sem juros sobre saldos e com teto de 3 mil euros (R$ 17,7 mil) por usuário. Qualquer valor acima seria redirecionado automaticamente para uma conta bancária vinculada — salvaguarda para evitar que os bancos percam depósitos em momentos de crise ou corridas bancárias.
Bancos e privacidade: os dois grandes obstáculos
O impacto nas receitas dos bancos europeus é um dos nós centrais do projeto. Hoje, a cada 100 euros pagos com cartão, entre 0,5% e 1,5% vão para taxas divididas entre banco e processadora. O euro digital pretende reduzir esses custos para comerciantes — mas as instituições financeiras alegam que arcarão com o ônus de construir e operar a nova infraestrutura sem compensação equivalente.
Para garantir adoção em massa, o BCE propõe conceder ao euro digital status de moeda de curso legal em toda a zona do euro. Qualquer comerciante com terminal de pagamento seria obrigado a aceitá-lo pelo valor integral, sem taxas adicionais ao consumidor. Países da UE fora da zona do euro poderão optar por aderir ao sistema.
Privacidade como condição política
Entre consumidores, a maior resistência é o temor de vigilância estatal. Parte da população traça paralelos com o sistema de crédito social chinês, no qual cidadãos recebem pontuações que podem restringir acesso a empréstimos, empregos e viagens. O BCE rejeita qualquer associação e propõe pagamentos diretos entre celulares com anonimidade similar à do dinheiro em espécie para pequenas transações cotidianas — mantendo, ao mesmo tempo, conformidade com regras de combate à lavagem de dinheiro.
O aval do Comitê Parlamentar na semana passada foi o passo mais concreto até agora para transformar o euro digital em lei — e colocar a Europa mais perto de controlar sua própria infraestrutura de pagamentos.
