O pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, acusou nesta segunda-feira (15) que a privatização da Sabesp foi conduzida com critérios “opacos e sem transparência”, beneficiando um único grupo em detrimento do erário paulista.
As declarações foram feitas em evento da revista Veja, com a presença do próprio governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que defendeu a venda e rebateu as críticas com dados sobre saneamento na Grande São Paulo.
Haddad apontou que, na segunda etapa da privatização, o estado de São Paulo abriu mão de R$ 3,7 bilhões sem explicação clara. Segundo ele, três cláusulas inseridas no contrato terviram para afastar potenciais competidores e direcionar o negócio a um único interessado. “Por que nós canalizamos a concessão para uma empresa só, acrescentando cláusulas que afastavam outros investidores? Foram três cláusulas acrescentadas para afastar investidores e ficou na mão de um”, questionou.
Tarcísio contra-atacou citando resultados concretos: Guarulhos teria saltado de 2% de tratamento de esgoto em 2019 para 45% atualmente, com projeção de atingir 78% até o fim do ano. Para o governador, a medida foi necessária para preservar a capacidade de investimento da companhia e antecipar as metas do Marco do Saneamento. “O pessoal leva sempre para o lado da política; a gente está focando em resultado”, disse.
No embate sobre concessões, Haddad reverteu a narrativa de que petistas seriam contrários à iniciativa privada. Citou que o ministro Renan Filho concedeu ao setor privado o triplo de rodovias em relação ao que Tarcísio havia feito quando era ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro, e que quase todos os contratos anteriores precisaram ser revistos com acompanhamento do TCU. “Não lido com ideologia, lido com aritmética”, afirmou.
A crítica ao processo de privatização da Sabesp não é novidade: duas semanas antes, Haddad já havia listado irregularidades no negócio — ações negociadas abaixo do mercado e processo direcionado a um único interessado — como peça central de sua estratégia de desgaste contra Tarcísio rumo a 2026.
Questionado após o evento sobre eventual reestatização da Sabesp, Haddad preferiu cautela. Disse que o tema exige análise jurídica rigorosa, já que contratos de privatização costumam conter cláusulas que dificultam revisões. Mas fez uma cobrança direta: o governador prometeu reduzir a conta de água e, segundo Haddad, não cumpriu. “Quem está financiando os investimentos é o consumidor, inclusive pagando duas vezes pela manutenção”, declarou.
O petista anunciou ainda que pretende revisar outros contratos da gestão Tarcísio, como o Muralha Paulista e o aditamento da Linha 6-Laranja do metrô, sinalizando que uma eventual vitória em outubro mudaria o rumo de projetos já em andamento.
Tarcísio, por sua vez, aproveitou o palco para alfinetar o governo federal. Definiu a gestão Lula como “perda de oportunidade, não vai deixar saudades” e disse que o Brasil permanece preso a “impasses do século XX”, deixando de explorar vantagens competitivas em biocombustíveis, transição energética e economia do conhecimento.
O embate no evento da Veja concentra o tom do que deve ser a disputa pelo governo de São Paulo em 2026: dois projetos antagônicos sobre o papel do Estado, desta vez dividindo o mesmo palco — e cada um apostando que os fatos jogam a seu favor.
