Um comprimido tomado uma vez ao dia quase dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas avançado em comparação com a quimioterapia convencional. Os resultados são do ensaio clínico de Fase 3 RASolute 302, com cerca de 500 pacientes, anunciado em abril de 2026.
O medicamento é o daraxonrasib, desenvolvido pela americana Revolution Medicines. Ele age bloqueando a proteína RAS — presente em mais de 90% dos tumores pancreáticos e considerada por décadas um alvo impossível de atingir com drogas.
O interruptor que não desligava
Dentro de cada célula humana, a proteína RAS funciona como um interruptor: ativa o crescimento celular quando necessário e desliga ao fim do processo. No câncer de pâncreas, uma mutação genética trava esse interruptor na posição ligada — as células crescem sem parar, invadem tecidos e formam metástases.
Pesquisadores tentaram durante décadas bloquear o RAS e falharam. A molécula fica dentro da célula e não oferece uma superfície clara onde um inibidor pudesse se encaixar. O RAS ficou conhecido na medicina como undruggable — inalcançável, impossível de tratar com drogas. Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, compara a situação a uma fechadura cujo miolo foi polido até perder os relevos: a chave entra, mas não encontra onde se firmar.
O daraxonrasib mudou esse cenário com um mecanismo distinto. Inibidores anteriores conseguiam bloquear apenas a variante G12C do RAS — uma fração menor dos tumores pancreáticos. O novo medicamento é um inibidor pan-RAS: age sobre múltiplas variantes ao mesmo tempo, incluindo G12D, G12V e G12R, as mais comuns nesse tipo de câncer, ampliando o universo de pacientes que podem se beneficiar.
O que o ensaio RASolute 302 mostrou
O estudo testou o daraxonrasib em um cenário particularmente difícil: pacientes metastáticos em segunda linha de tratamento, que já haviam passado pela quimioterapia e não tinham mais opções. A sobrevida mediana no grupo que recebeu o comprimido foi de 13,2 meses, contra 6,7 meses no grupo de quimioterapia convencional. A razão de risco de 0,40 representa queda de 60% no risco de morte.
Cerca de um terço dos pacientes teve redução do tumor; 80% apresentaram estabilidade ou resposta. Todos os endpoints primários e secundários foram atingidos. “Ter uma resposta superior à da primeira linha, numa segunda etapa de tratamento, foi realmente surpreendente”, afirma Coimbra.
O medicamento é oral — tomado em casa, sem necessidade de infusão hospitalar. Os efeitos colaterais mais frequentes foram reações de pele, náuseas, fadiga e mucosite, considerados manejáveis com acompanhamento médico. Nos Estados Unidos, o FDA concedeu ao daraxonrasib o status de Breakthrough Therapy, além das designações de medicamento órfão e prioridade nacional de análise. O acesso compassional já foi autorizado para casos sem alternativas terapêuticas.
O abismo financeiro no caminho do SUS
Para chegar ao sistema público brasileiro, o daraxonrasib precisaria percorrer uma via já conhecida: aprovação pela Anvisa, fixação de preço pela CMED e análise da Conitec para incorporação ao SUS. O percurso é o mesmo enfrentado pelo lenacapavir contra o HIV, aprovado pela Anvisa em fevereiro de 2026, mas ainda sem prazo definido para chegar ao sistema público.
O obstáculo financeiro é imediato. A Autorização de Procedimentos de Alta Complexidade (APAC) paga pelo SUS para tratar um paciente com câncer de pâncreas é de cerca de R$ 1.986 por mês. O custo médio de uma droga oncológica nova no mercado americano gira em torno de R$ 50 mil mensais — uma distância que torna o acesso pelo sistema público praticamente inviável sem negociação de preço. O padrão repete o que ocorreu com a terapia CAR-T, que pode custar até R$ 4 milhões por dose e ainda enfrenta barreiras no SUS. No sistema privado, mesmo após aprovação da Anvisa, a ANS precisaria publicar uma diretriz de utilização técnica para que os planos de saúde fossem obrigados a cobrir o tratamento.
As próximas fronteiras científicas devem explorar o daraxonrasib em combinação com imunoterapia, como opção de primeira linha e em outros tumores com mutação no RAS — incluindo câncer colorretal e câncer de pulmão de células não pequenas. Os dados completos serão apresentados no congresso anual da American Society of Clinical Oncology, em junho de 2026. Coimbra é preciso quanto ao alcance atual da descoberta: “Não podemos falar em cura.” O que o daraxonrasib provou, por enquanto, é que undruggable é uma palavra provisória — e que, numa doença em que meses importam, isso não é pouco.