Em Chicago, na sessão plenária do maior congresso de oncologia do mundo, médicos e pesquisadores se levantaram para aplaudir. Aplausos de pé são raros em congressos científicos. Neste, pareciam inevitáveis.
O daraxonrasib — comprimido diário da Revolution Medicines — foi testado num ensaio fase 3 com 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático sem resposta à quimioterapia. O resultado: 6,5 meses a mais de sobrevida e tolerância muito superior à quimio convencional.
Apresentado na ASCO em 1º de junho de 2026, o remédio superou uma proteína que pesquisadores consideravam intratável por décadas. No Brasil, onde a doença mata 12 mil pessoas por ano, não há prazo para o acesso.
O que o estudo revelou
O RASolute 302 seguiu o padrão mais exigente da medicina: ensaio clínico randomizado de fase 3. Os 500 pacientes foram divididos por sorteio — nem médicos nem pacientes escolheram os grupos. Metade recebeu daraxonrasib, metade seguiu com quimioterapia convencional. O formato existe para eliminar vieses e garantir que qualquer diferença nos resultados seja atribuível ao tratamento, não ao acaso.
A sobrevida mediana no grupo do daraxonrasib chegou a 13 meses — 6,5 meses a mais do que no grupo controle. Mais de 30% dos pacientes apresentaram redução objetiva da doença. E apenas 1,2% precisaram abandonar o tratamento por efeitos colaterais, frente a 11,2% no grupo de quimioterapia. Os resultados foram considerados finais e publicados no Journal of Clinical Oncology.
A conclusão dos pesquisadores foi direta: o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para câncer de pâncreas metastático em segunda linha. Os dados preliminares divulgados em abril já antecipavam esse desfecho — o que a fase 3 fez foi blindar a evidência com o rigor exigido para mudar protocolos globais.
Por que essa doença era tão difícil de tratar
O câncer de pâncreas não avisa. Quando é diagnosticado, cerca de 80% dos casos já estão em estágio avançado ou metastático. A sobrevida em cinco anos, para a forma metastática, gira em torno de 3% — uma das mais baixas entre todos os cânceres. No Brasil, são 13 mil novos diagnósticos anuais; cerca de 12 mil morrem.
Grande parte dessa resistência ao tratamento vem da proteína RAS — um interruptor celular que, quando mutado, trava na posição “ligado” e ordena às células que cresçam sem parar. Presente em mais de 90% dos tumores pancreáticos, o RAS ficou conhecido como undruggable: não havia superfície onde uma droga pudesse se fixar. Décadas de pesquisa foram insuficientes para bloqueá-lo.
O daraxonrasib chegou onde ninguém havia chegado, atacando não apenas uma variante da mutação, mas várias ao mesmo tempo. O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, presente na plenária em Chicago, resumiu a comoção: “Os 13 meses são uma mediana — há pacientes que viveram muito além disso. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor.”
O caminho ao FDA — e a distância para o Brasil
A Revolution Medicines confirmou que submeterá os dados ao FDA. A droga já carrega o status de Breakthrough Therapy — categoria reservada a medicamentos com vantagem substancial sobre tratamentos existentes, que garante análise prioritária —, além de designação de medicamento órfão e seleção para o programa National Priority Voucher. Nos Estados Unidos, o acesso compassional para casos sem outras opções já está autorizado.
Para o Brasil, o horizonte é mais distante. A Anvisa precisaria conduzir seu próprio processo de aprovação. No sistema privado, a ANS teria que publicar diretrizes técnicas para obrigar os planos de saúde à cobertura. No público, o obstáculo começa no preço: o SUS paga hoje cerca de R$ 1.986 por paciente com câncer de pâncreas, enquanto drogas oncológicas novas custam em média dez mil dólares por mês no mercado americano.
A disparidade não é nova nem exclusiva a esse medicamento. A CAR-T, que elimina tumores hematológicos agressivos em mais da metade dos casos, ainda não chegou ao SUS por custar até R$ 4 milhões por dose — uma régua concreta do que o daraxonrasib terá de enfrentar num sistema que paga menos de dois mil reais por paciente.
E a distância entre aprovação e acesso efetivo pode ser fatal. Larissa Amorim morreu em maio de 2026, 59 dias após uma ordem judicial garantir o medicamento que seus médicos pediam — o tipo de abismo que o daraxonrasib terá de cruzar para chegar ao sistema público brasileiro.
Não há previsão concreta de quando — nem se — esse tratamento chegará ao paciente brasileiro no curto prazo.