A Anvisa aprovou nova indicação do medicamento Datroway (datopotamabe deruxtecana) para adultos com câncer de pulmão de não pequenas células, localmente avançado ou metastático, com mutação no gene EGFR, decisão publicada nesta segunda-feira (27).
O tratamento passa a ser opção para pacientes que já receberam terapia-alvo e quimioterapia à base de platina, etapa em que as alternativas terapêuticas costumam ser mais limitadas.
Como funciona o novo tratamento
O câncer de pulmão de não pequenas células responde por cerca de 85% dos casos da doença, e uma parcela desses tumores apresenta mutações no gene EGFR, alteração que estimula o crescimento das células cancerígenas. Nas últimas décadas, esses pacientes passaram a ser tratados com terapias-alvo, medicamentos que bloqueiam especificamente a proteína produzida pelo EGFR alterado.
Com o tempo, porém, o tumor pode desenvolver resistência ao tratamento. Quando isso ocorre — sobretudo depois de o paciente também receber quimioterapia à base de platina —, as opções terapêuticas diminuem. É nesse cenário que o Datroway passa a ser uma alternativa.
O datopotamabe deruxtecana pertence a uma classe mais recente de medicamentos oncológicos, os conjugados anticorpo-fármaco: um anticorpo reconhece uma proteína na superfície das células tumorais e libera a quimioterapia diretamente no alvo, ampliando o efeito sobre o tumor e reduzindo a exposição de tecidos saudáveis — diferente da quimioterapia convencional, que circula pelo corpo sem alvo definido. O remédio já era registrado no Brasil para determinados casos de câncer de mama.
Para Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, a aprovação atende uma demanda que existia para um grupo específico de pacientes. Segundo o especialista, os estudos mostraram redução do tumor em cerca de 45% dos pacientes tratados, com a doença permanecendo controlada por uma mediana de 6,5 meses.
Caminho até o SUS ainda depende da Conitec
A autorização da Anvisa permite a comercialização do medicamento para essa indicação no Brasil, mas não garante oferta automática pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Isso depende de avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), que analisa evidências científicas, impacto orçamentário e custo-efetividade antes de recomendar a incorporação de um tratamento à rede pública. Na saúde suplementar, a cobertura depende de avaliação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da eventual atualização do rol de procedimentos.
Estudos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica já mostraram que pacientes de câncer de pulmão com alterações genéticas atendidos pelo SUS sobrevivem menos e enfrentam mais dificuldade de acesso a terapias-alvo do que os da rede privada — cenário que reforça a relevância da futura avaliação da Conitec sobre o novo medicamento.
A aprovação repete um movimento recente da Anvisa: dias antes, a agência já havia liberado o Columvi, outro medicamento oncológico de ponta, indicado para linfoma agressivo e também baseado em tecnologia de precisão direcionada a alvos específicos do tumor. O câncer de pulmão segue como a principal causa de morte por câncer no mundo, e a ampliação de indicações como essa reforça a tendência da oncologia por tratamentos cada vez mais personalizados.