As contas do governo federal registraram um déficit primário de R$ 73,8 bilhões em março de 2026, o pior resultado para o mês desde o início da série histórica do Tesouro Nacional, em 1997.
O dado foi divulgado nesta quarta-feira (29). No mesmo mês do ano passado, o resultado havia sido positivo em R$ 1,59 bilhão — uma reversão de mais de R$ 75 bilhões em 12 meses.
O governo atribui a deterioração, principalmente, à antecipação no cronograma de pagamento de precatórios, sentenças judiciais que o poder público é obrigado a honrar.
Despesas disparam 49% e superam arrecadação recorde
Em março, as despesas totais do governo somaram R$ 269,88 bilhões, alta real de 49,2% frente ao mesmo período de 2025. O salto é atribuído, em grande medida, ao calendário antecipado de pagamento de precatórios, que pesou sobre diversas rubricas orçamentárias no mês.
Também contribuíram para o avanço dos gastos a elevação nas despesas com benefícios previdenciários e com pessoal — impulsionados pelo aumento na base de segurados, pela política de valorização do salário mínimo e pelos reajustes concedidos ao funcionalismo público.
Mesmo com a arrecadação federal batendo recorde histórico em março — R$ 229,2 bilhões, maior valor para o mês desde 1995 —, as despesas avançaram quase sete vezes mais rápido. A receita líquida, após as transferências constitucionais a estados e municípios, chegou a R$ 196,1 bilhões, com crescimento real de 7,5%, impulsionada pelo crescimento da economia e pelos aumentos de impostos implementados pelo governo Lula.
No acumulado do primeiro trimestre de 2026, o déficit primário somou R$ 17,09 bilhões — contra um superávit de R$ 58,75 bilhões registrado no mesmo período de 2025, diferença de quase R$ 76 bilhões. As despesas totais de janeiro a março chegaram a R$ 643,52 bilhões (+23,3% real), enquanto a receita líquida acumulou R$ 626,41 bilhões (+4,2% real).
Meta fiscal de 2026 segue sob pressão
Para este ano, o governo trabalha com meta de superávit primário equivalente a 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões. Atingir esse patamar, diante do desempenho acumulado no trimestre, exigirá reversão expressiva do quadro fiscal nos meses restantes.
O arcabouço fiscal, no entanto, prevê uma válvula de escape: o Executivo pode excluir do cálculo da meta até R$ 63,5 bilhões em despesas com precatórios. É exatamente esse mecanismo que o governo usa para justificar os pagamentos antecipados sem contabilizá-los integralmente como descumprimento da regra.
O déficit de março aprofunda uma trajetória que já preocupava o mercado: em fevereiro, o setor público havia fechado no vermelho em R$ 16,4 bilhões, levando a dívida pública a 79,2% do PIB — o nível mais alto em mais de quatro anos.
O bom desempenho da arrecadação, sustentado pelo crescimento econômico e pelos aumentos de impostos dos últimos anos, atenua mas não compensa a expansão dos gastos públicos — um desequilíbrio que deve seguir no radar de analistas e do mercado financeiro ao longo de 2026.
