Meio ambiente

Desigualdade urbana deixa os mais pobres mais expostos a enchentes, diz professor da USP

Em Ribeirão Preto, investimentos concentrados nas áreas ricas fazem a zona Norte sofrer mais com temporais
Vista aérea de Ribeirão Preto ilustra a desigualdade urbana e eventos climáticos extremos que afetam mais os bairros pobres

Quem mora em bairros pobres, com moradias precárias e pouca infraestrutura, sofre mais com eventos climáticos extremos e leva mais tempo para se recuperar de enchentes e temporais. A avaliação é do professor Jeferson Tavares, do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Em entrevista ao Jornal da USP, publicada em 3 de novembro, o pesquisador atribui o problema à desigualdade urbana na distribuição de investimentos públicos. Para ele, a falta de políticas de moradia e de renda empurra famílias para áreas ambientalmente vulneráveis.

O retrato de Ribeirão Preto

Tavares usa Ribeirão Preto, no interior paulista, como exemplo. A infraestrutura e os investimentos se concentram nas regiões mais valorizadas, no Sul da cidade. Com isso, a zona Norte, onde vive a população de menor renda, é a mais prejudicada quando chegam os eventos extremos.

O professor afirma que o risco existe para toda a cidade, mas não atinge todos da mesma forma. “Todos estão expostos aos riscos mas, onde você tem maior concentração de riqueza, os riscos têm menor incidência, e onde você tem menor concentração de riqueza, os riscos têm maior incidência”, disse.

A relação entre vulnerabilidade social e clima já tinha aparecido em estudos que mostram que os mais pobres, em áreas precárias e sem infraestrutura, são os mais atingidos por enchentes e outros extremos climáticos.

Um modelo de cidade que amplia o risco

Para o pesquisador, o agravamento dos impactos também tem a ver com a forma como as cidades brasileiras cresceram: dependência do automóvel, solo impermeabilizado e ocupação de áreas ambientalmente frágeis. Esse padrão intensifica os efeitos das chuvas fortes e dificulta a adaptação.

Ele alerta ainda que apenas reconstruir o que foi destruído, sem mudar esse modelo, deixa os municípios expostos a novos desastres.

Soluções baseadas na natureza e escuta dos moradores

Como saída, Tavares defende investir em infraestrutura verde e azul, em soluções baseadas na natureza e em políticas de adaptação climática. Ele também propõe que os planos municipais de prevenção de riscos incluam mobilidade, saúde, educação e gestão de resíduos, em vez de tratar o problema de forma isolada.

A proposta toca num ponto sensível: estudo do Cemaden mostrou que mais de 30% dos municípios brasileiros nem têm plano de contingência para desastres climáticos.

Segundo o professor, as medidas precisam levar em conta as características de cada território e incluir quem vive nas regiões afetadas. “É fundamental que todos esses planos tenham um período de escuta e discussão das soluções com a população afetada”, afirmou.