Economia

Pesquisador aponta como o bairro de origem influencia mobilidade social no Brasil

Michael França analisa impacto da loteria do nascimento e defende que escolaridade não basta para romper desigualdades

O economista Michael França defende que o bairro onde uma pessoa nasce é determinante para suas oportunidades de ascensão social e econômica. Segundo ele, fatores como educação, infraestrutura e redes de contato variam entre regiões e impactam o futuro dos moradores.

França, que cresceu em Uberaba e hoje é coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, critica a ideia de que apenas a escolaridade resolve desigualdades e destaca o papel de gênero, raça e origem social nas trajetórias.

Desigualdade territorial e mobilidade social

Pesquisas recentes mostram que bairros com melhor infraestrutura proporcionam mais oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional. O acesso a escolas de qualidade, transporte eficiente, serviços públicos adequados e ambientes seguros são fatores que ampliam as perspectivas dos moradores. Por outro lado, a segregação socioespacial reforça desigualdades, dificultando o acesso de quem vive em áreas periféricas a recursos essenciais.

Segundo Michael França, a chamada “loteria do nascimento” — combinação de local, família, gênero e raça — é determinante para o futuro de cada indivíduo. “Se você nasceu numa família rica, sendo um homem branco, hétero, numa cidade de um país desenvolvido, suas chances são muito maiores do que, por exemplo, as de uma mulher lésbica de uma favela do interior do Acre”, afirma o pesquisador.

Mesmo com avanços como o Programa Universidade para Todos (Prouni), que completou 20 anos em 2025 e custeou a formação de 3,5 milhões de estudantes, França argumenta que políticas públicas ainda não foram suficientes para alterar estruturalmente a desigualdade.

Limites da meritocracia e papel da educação

França destaca que, embora a educação abra portas, ela não compensa integralmente o peso de fatores como classe, raça e gênero. “A expectativa é que quem não tem patrimônio familiar, mas conquista educação, terá alta renda, começará a acumular riqueza e romperá o ciclo. Mas não é bem assim”, diz. O economista ressalta ainda que o sistema tributário e o padrão de gastos do Estado favorecem os mais ricos, perpetuando as desigualdades.

O pesquisador observa que, mesmo entre pessoas igualmente qualificadas, quem vem de famílias ricas conta com redes de contato e patrimônio que facilitam a ascensão. Já quem é de baixa renda sente pressão para trabalhar cedo e sustentar a família, além de enfrentar barreiras culturais e psicológicas no ambiente profissional.

Desafios e perspectivas para a inclusão

Para França, políticas públicas voltadas à inclusão social e à melhoria da infraestrutura dos bairros menos favorecidos são fundamentais para reduzir as disparidades. Ele aponta que, mesmo com a democratização do acesso ao ensino superior, fatores como patrimônio familiar, redes de contato e códigos culturais continuam determinando o sucesso profissional.

O economista também chama atenção para os efeitos psicológicos da desigualdade. Pessoas de baixa renda, apesar da resiliência, podem apresentar autoestima menor, enquanto indivíduos privilegiados enfrentam pressões e fragilidades psíquicas. França relata sua própria experiência como o único aluno negro em sua turma da USP e destaca o alto custo pessoal da mobilidade social.

França critica o discurso meritocrático e a naturalização da desigualdade, defendendo que a solução passa por reformas na tributação e nos gastos públicos. Ele afirma que o debate sobre mobilidade social deve considerar a complexidade dos mecanismos que perpetuam privilégios e desvantagens, e que a conscientização sobre esses fatores ainda é limitada no Brasil.

Por fim, o pesquisador ressalta que discutir pobreza, riqueza e desigualdade exige aprofundamento e que o país precisa investir em políticas estruturais para garantir oportunidades mais justas a todos.

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