Saúde

Fentanil aparece em um terço dos usuários de maconha sintética em SP, mostra USP

Nenhum dos 21 participantes com o opioide na saliva sabia que o consumia, e os pesquisadores alertam para um risco maior de overdose
Skyline de São Paulo e prédio da USP sobre o tema fentanil maconha sintética São Paulo, com alerta de saúde pública

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) encontraram fentanil na saliva de 21 de 65 usuários de maconha sintética atendidos em serviços públicos de São Paulo. Nenhum deles disse ter consumido opioides.

Segundo os autores, é a primeira pesquisa científica a confirmar o opioide em amostras biológicas de usuários de drogas no Brasil. O resultado indica que ele circula escondido em produtos que, em tese, não o contêm.

Como o estudo foi feito

Os participantes foram recrutados entre agosto de 2024 e agosto de 2025 em três serviços públicos de tratamento. Um deles é o Instituto Perdizes do Hospital das Clínicas (IPer-HC), especializado em dependência química. Os outros dois são Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) da Zona Leste, em São Miguel e Itaquera.

Para entrar no estudo, a pessoa precisava ter usado maconha sintética nos quatro dias anteriores. Cada participante respondeu a um questionário que perguntava diretamente sobre fentanil, morfina, codeína e heroína. Também entregou uma amostra de saliva, analisada no Laboratório de Toxicologia da FMUSP.

Por que a suspeita recai sobre as drogas K

Apreensões em São Paulo já encontraram fentanil misturado à cocaína. Para os autores, porém, a exposição neste caso veio da maconha sintética: nenhum dos 21 participantes com o opioide relatou uso de maconha comum, cocaína ou álcool nos quatro dias antes da coleta.

Até agora, a presença do fentanil no país era conhecida sobretudo por apreensões e casos isolados. O uso ilegal de opioides no Brasil sempre foi considerado raro, inclusive entre as populações mais vulneráveis. Nos Estados Unidos é o contrário: a substância está no centro da crise de overdoses.

O achado da USP ocorre num cenário global de expansão dos opioides sintéticos. Em junho, o relatório da UNODC já alertava que fentanil e outras substâncias avançam à medida que laboratórios criam compostos para escapar da regulação.

Risco maior em caso de overdose

Opioides como o fentanil reduzem a respiração. Segundo os pesquisadores, a combinação com canabinoides sintéticos pode agravar esse efeito.

Experimentos com camundongos citados no estudo mostraram respiração ainda mais fraca e menor resposta à naloxona, o remédio usado para reverter overdoses de opioides. Há registro de pelo menos uma morte por intoxicação com as duas drogas juntas.

O recado a médicos e equipes de saúde é não confiar só no que o paciente diz ter usado. Numa overdose com essa mistura, a dose padrão de naloxona pode não bastar, e pode ser preciso aplicar doses maiores ou repetidas.

O que são as drogas K

Vendidas nas ruas como K2, K4, K9 e spice, as drogas K não vêm da planta de cannabis. São substâncias feitas em laboratório que imitam o THC, principal composto psicoativo da maconha. Em geral são borrifadas sobre plantas secas e fumadas, ou inaladas como líquido em cigarros eletrônicos.

Segundo o estudo, esses produtos ganham espaço no mercado brasileiro desde 2014 e são vendidos com frequência a populações vulneráveis das grandes cidades. O K9 foi o mais citado, em duas versões, a “forte” e a “fraca”. A fraca era a mais usada, por ter efeito mais leve.

A variedade química também atrapalha o diagnóstico. Todos os participantes com fentanil disseram ter usado maconha sintética nas 48 horas anteriores, mas nem todos tiveram resultado positivo para ela. Para os autores, o mais provável é que as moléculas consumidas não estivessem entre as que o exame consegue detectar.