Uma das duas novas espécies de bugio identificadas na Amazônia por análise genômica já surge ameaçada. O bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis) vive numa área que se sobrepõe ao Arco do Desmatamento.
A outra é o bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), do norte do Amazonas. O estudo tem 41 autores, liderados pela Universidade de Salford, na Inglaterra, e foi publicado na sexta-feira (30) na revista Communications Biology.
Um primata restrito à fronteira agropecuária
O bugio-vermelho-do-Mato-Grosso vive apenas entre os rios Madeira e Teles Pires, de Rondônia a Mato Grosso, no sul da Amazônia. Sua área chega até a transição com o Cerrado, justamente uma das principais frentes de expansão da agropecuária no país.
Por isso, os autores pedem pressa. “O estado de conservação da espécie nova Alouatta matogrossensis deve ser avaliado com urgência, pois é provável que ela seja classificada como Criticamente Em Perigo”, escrevem no artigo.
O principal risco é a perda de habitat, tanto a que já aconteceu quanto a projetada para os próximos anos. Os pesquisadores comparam a situação do bugio à do zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi). Essa espécie também vive só no norte de Mato Grosso, está classificada como Criticamente Em Perigo e já entrou na lista dos primatas mais ameaçados do mundo.
“O bugio-de-Mato-Grosso está no Arco do Desmatamento. É imediata a avaliação que precisamos fazer da espécie e as estratégias de conservação”, afirmou ao ((o))eco, em reportagem de Duda Menegassi, o primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores do estudo.
Pantepui: área preservada, mas com obra à vista
O bugio-vermelho-do-Pantepui recebeu esse nome por causa dos tepuis, as montanhas de topo plano típicas do seu habitat. Ele vive numa região limitada pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, no Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana.
A área ainda está bem preservada. Mesmo assim, os pesquisadores pedem atenção por causa da construção iminente da Usina Hidrelétrica Bem-Querer, no Rio Branco, e dos efeitos das mudanças climáticas previstos para a região.
Genoma redesenha o mapa dos bugios
O trabalho analisou o genoma completo das espécies de bugio já reconhecidas na América do Sul e na América Central. Os autores cruzaram esses dados com a morfologia (aparência, tamanho e forma) e a distribuição geográfica de cada uma. Os animais também são chamados de guaribas ou barbados, conforme a região do Brasil.
Com a revisão, o gênero Alouatta passa a ter 16 espécies e duas subespécies. A análise também derrubou o bugio-vermelho-do-rio-purus (Alouatta puruensis), descrito na Amazônia brasileira e peruana, como espécie própria: ele não se distingue das já conhecidas.
O estudo mostra ainda como os grandes rios amazônicos e as zonas de transição entre floresta e savana funcionam como barreiras naturais. Ao longo de milhares de anos, essas barreiras isolaram populações e favoreceram o surgimento de novas espécies.
“A biologia molecular é hoje uma ferramenta fundamental, junto com a morfologia, distribuição geográfica e vocalização, para conhecer a nossa biodiversidade”, disse Melo. Para ele, a história evolutiva dos bugios ajuda a entender como as florestas tropicais mudaram ao longo dos milênios e das variações do clima. Esse conhecimento também ajuda a planejar estratégias de conservação.