Uma passagem temporária do aquecimento global acima de 1,5°C já pode deixar marcas permanentes em geleiras, mantos de gelo e oceanos polares. O efeito chega ao nível do mar que banha o litoral brasileiro.
O alerta está em um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), que reúne mais de 80 cientistas.
O estudo trata do chamado overshoot, o período em que a temperatura média do planeta supera 1,5°C e depois volta a cair. Segundo os autores, as perdas irreversíveis de gelo podem seguir por décadas ou séculos.
Gelo derrete seis vezes mais rápido que nos anos 1990
As grandes camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida já perdem massa num ritmo cerca de seis vezes maior que o da década de 1990. A perda de gelo na Antártida já vinha batendo recordes: em março de 2025, a extensão do gelo marinho chegou a apenas 1,98 milhão de km².
De acordo com o relatório, quanto mais intenso e prolongado for o aquecimento acima de 1,5°C, maior tende a ser a contribuição do gelo para a elevação do nível do mar.
No longo prazo, algumas instabilidades nos mantos de gelo podem, ao longo dos próximos séculos, elevar o mar em vários metros, com fases de avanço de até alguns centímetros por ano.
Voltar a 1,5°C não basta
Mesmo em cenários em que a temperatura volte a 1,5°C, parte da perda de gelo vai continuar. Para os cientistas, um patamar mais seguro para as grandes camadas de gelo estaria mais perto de 1°C de aquecimento, ou até abaixo disso.
Os oceanos também ficam com essa herança. O aquecimento e a acidificação das águas polares, além de mudanças nas grandes correntes oceânicas, podem durar séculos mesmo depois de uma eventual queda das temperaturas globais.
O que está em jogo para o Brasil
Para o país, a consequência mais direta é a subida do mar. Ela aumenta o risco de inundações costeiras, de erosão de praias e de entrada de água salgada em aquíferos e áreas agrícolas.
O novo documento dá continuidade a um alerta anterior. Em setembro, outro relatório do Pnuma já havia confirmado que a ultrapassagem do limite de 1,5°C é inevitável. Agora, o estudo mostra o que isso significa para o gelo e para o nível do mar.
Corte de 5% ao ano nas emissões
Os autores defendem cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, para que qualquer ultrapassagem de 1,5°C seja a mais curta e a menor possível.
Pelas contas do relatório, reduzir as emissões em pelo menos 5% ao ano e chegar a emissões líquidas zero até meados do século ainda pode limitar parte das perdas. Alguns impactos, porém, já não podem ser totalmente revertidos.