Meio ambiente

Corumbá e Ladário viram clima subúmido seco e levam o Pantanal à rota da aridez

Plano federal contra a desertificação reclassifica os municípios de MS; cientistas ligam a mudança à perda de chuva e de vegetação no Cerrado
Cerrado seco com árvore solitária, símbolo da aridez Pantanal Corumbá Ladário e da perda de chuva e vegetação

Corumbá e Ladário, no noroeste de Mato Grosso do Sul, deixaram a faixa de clima úmido e foram reclassificados como subúmidos secos, categoria até então restrita ao interior do Nordeste, ao norte de Minas Gerais e ao noroeste do Espírito Santo.

A mudança consta do novo Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB-Brasil 2025-2045), do Ministério do Meio Ambiente, lançado em junho, e põe o Pantanal oficialmente na rota da aridez.

Pesquisadores ouvidos em reportagem da Mongabay, assinada por Samanta do Carmo, ligam o avanço da seca à queda de chuvas e à perda de vegetação no Cerrado, onde nasce parte da água que abastece a planície.

O que está por trás da reclassificação

A régua é o Índice de Aridez, a razão entre a chuva acumulada e a evapotranspiração potencial, ou seja, quanta água a atmosfera retiraria do solo e das plantas se houvesse oferta. Abaixo de 0,2, o clima é árido; entre 0,2 e 0,5, semiárido; entre 0,5 e 0,65, subúmido seco. Os dois municípios entraram nessa última faixa com base em dados de 1990 a 2020 da bacia do Rio Paraguai.

O plano atualiza a versão de 2004, mas o sinal não é inédito: uma nota técnica do Inpe e do Cemaden, de 2023, já apontava aumento da aridez nessa porção do estado.

Corumbá, quinto município mais populoso de MS, tem cerca de 96,3 mil habitantes, segundo o IBGE, e mais de 2,1 milhões de cabeças de gado, de acordo com a Embrapa. Ladário, a cerca de 6 km e totalmente cercado pelo vizinho, tem produção agrícola concentrada na agricultura familiar e em assentamentos.

Golpe duplo no Cerrado

O geógrafo Gabriel Hofmann, da Pictis, aponta o fortalecimento do anticiclone do Atlântico Sul, intensificado pelas mudanças climáticas, que empurra o fim da estiagem para outubro ou novembro. A isso se soma a retirada da vegetação nativa, cujas raízes profundas mantêm a evapotranspiração na seca, algo que a pastagem de braquiária não faz.

Estudo de 2023 liderado por ele na Scientific Reports, com 70 estações da ANA, mostrou que a chuva média anual no Cerrado entre 1991 e 2021 ficou 64,8 mm abaixo da de 1960 a 1990, com cerca de cinco dias chuvosos a menos por ano. Segundo o MapBiomas, o bioma perdeu 36,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1990 e 2020, e a pastagem ocupava 54,3 milhões de hectares em 2020. Em quatro décadas, a perda de vegetação no bioma já soma 40 milhões de hectares.

Como parte das nascentes da bacia do Alto Paraguai fica no Cerrado, a conta chega à planície. “A diminuição da chuva no Cerrado está levando à diminuição da água no Pantanal e causando esse aumento da aridez na região”, afirmou Hofmann, que cita ainda a irrigação por pivôs centrais como fator que amplia a perda de vazão dos rios.

Seca que desce do norte para o sul

O biólogo Ernandes Sobreira Oliveira Junior explica que as águas do Pantanal vêm dos rios voadores abastecidos pela umidade amazônica e das nascentes do Cerrado, e que o desmatamento nos dois biomas pode estar refletido na reclassificação. Os primeiros sinais surgem no norte, em baías que não alagam e rios que não transbordam; como a água escoa lentamente para o sul, a falta chega a Corumbá e Ladário. Em junho, o MapBiomas Água já havia mostrado que a Região Hidrográfica do Paraguai perdeu 53,8% de sua superfície de água em relação à média histórica.

“Secas mais intensas podem ocorrer, e isso favorece outras situações, como aumento de queimadas, prejuízo na qualidade do ar, aumento de doenças cardiorrespiratórias”, alertou.

Suscetível, não deserto

Pelo PAB, áreas subúmidas secas são suscetíveis à desertificação, entendida como degradação da terra, não como surgimento de um deserto. Hofmann lembra que a ONU define deserto com menos de 500 mm de chuva por ano, enquanto Cerrado e Pantanal registram de 1.100 a 1.500 mm.

A Semadesc, de Mato Grosso do Sul, reconheceu a classificação, mas afirmou que os municípios não estão desertificados e que o estado não participou da elaboração do plano. A pasta citou o PSA Pantanal e a Lei do Pantanal e disse que considerará os dados em suas estratégias de adaptação. Para Hofmann, reverter o quadro exige cortar emissões e migrar das commodities para agroflorestas e sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta.