O Brasil perdeu 14% de sua cobertura de vegetação nativa entre 1985 e 2025, segundo dados divulgados pelo MapBiomas nesta quarta-feira (12). No período, a área ocupada pela agropecuária no país quase dobrou, saltando de 18% para 32% do território nacional.
O diagnóstico integra a Coleção 11 do MapBiomas, que mapeia anualmente a cobertura e o uso da terra no Brasil desde 1985 e, nesta edição, reúne 33 classes de mapeamento em todo o território nacional.
Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas
As maiores perdas absolutas de vegetação nativa ocorreram na Amazônia e no Cerrado, biomas que perderam, respectivamente, 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Proporcionalmente, porém, Cerrado e Pampa tiveram as maiores quedas dentro de seus próprios territórios, de 34% e 32%. A Mata Atlântica segue sendo o bioma com a menor proporção de vegetação nativa remanescente, com apenas 32% em 2025 — um cenário que levantamento anterior já havia mapeado em detalhe no caso do Cerrado, apontando o avanço da soja e da pecuária como principais vetores da perda.
Vinte e cinco estados perderam vegetação nativa
Entre 1985 e 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com alta de 1% no período. Rondônia registrou uma das mudanças mais acentuadas do país: a cobertura nativa do estado caiu de 92% para 59% do território.
A soja liderou a expansão da fronteira agrícola, saltando de 4,5 milhões de hectares em 1985 para 44,2 milhões em 2025. A agricultura como um todo passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares, enquanto as pastagens somaram 165,6 milhões de hectares e ainda respondem por mais da metade da área agropecuária brasileira.
Chuvas de El Niño reforçam desigualdade entre regiões
A nova coleção também cruzou as mudanças no uso da terra com dados de chuva registrados em três episódios fortes de El Niño: 1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024. Na Amazônia, o evento mais recente teve o maior déficit de precipitação entre os biomas analisados, com 178 milímetros de chuva abaixo da média climatológica nas áreas agropecuárias entre setembro e novembro. Cerrado e norte da Mata Atlântica também registraram agravamento da redução das chuvas ao longo dos episódios.
No Sul do país, o comportamento foi inverso: os eventos de El Niño estiveram associados a excesso de chuva, principalmente no Pampa e na porção sul da Mata Atlântica. Para o MapBiomas, a comparação ajuda a mostrar como biomas com diferentes coberturas respondem de formas distintas aos extremos de precipitação.
O retrato de quatro décadas contrasta com o ritmo mais recente de destruição: o desmatamento anual no Brasil caiu para 984 mil hectares em 2025, abaixo de 1 milhão pela primeira vez desde 2019. Ainda assim, o passivo acumulado é expressivo: um ano antes, a Coleção 10 já havia contabilizado 111,7 milhões de hectares de áreas naturais perdidas desde 1985, área maior que a Bolívia inteira.