A atmosfera fechou 2025 com recorde de concentração dos três principais gases do efeito estufa de longa duração: dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso.
O balanço é do boletim anual da Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU, divulgado nesta terça-feira (27). O CO2 chegou a 426,8 partes por milhão (ppm), 153% do nível de 1750.
Na prática, o planeta retém cada vez mais calor. A agência já prevê nova alta em 2026, puxada pelos combustíveis fósseis e por um El Niño intenso.
Crescimento menor, estoque maior
Na comparação com 2024, o CO2 subiu 2,8 ppm. A alta foi menor que a do ano anterior (3,6 ppm), mas segue acima da média das últimas décadas. Segundo a OMM, o ritmo de acúmulo triplicou desde os anos 1960: era de 0,8 ppm por ano naquela década e passou a 2,4 ppm por ano entre 2011 e 2020.
Para ter uma ideia da mudança: em 2004, quando a agência lançou o boletim, a média global era de 377,5 ppm. Hoje, de cada milhão de moléculas de ar, cerca de 427 são de CO2.
A OMM explica que a desaceleração recente veio de dois fatores: a vegetação voltou a absorver mais carbono e os incêndios florestais emitiram menos. Nos dois anos anteriores, o El Niño havia deixado o clima mais seco, o que enfraqueceu as plantas e favoreceu o fogo.
Em declarações reproduzidas pelo g1, uma especialista lembrou que o alívio é relativo: “Um aumento anual de 2,8 ppm ainda representa uma quantidade significativa de carbono adicionada à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis”.
O CO2 responde por 66% da força radiativa dos gases de efeito estufa, ou seja, da capacidade de aquecimento da atmosfera, e por 83% do aumento dessa força na última década, de acordo com o relatório.
Metano e óxido nitroso também em alta
O metano chegou a 1.948 partes por bilhão (ppb), 267% do nível pré-industrial, e responde por cerca de 16% do efeito de aquecimento dos gases de longa duração. O aumento de 6 ppb em relação a 2024 foi menor que os 8 ppb do ano anterior e que a média da década (10,2 ppb por ano). Perto de 65% das emissões vêm de atividades humanas, como pecuária, cultivo de arroz, exploração de combustíveis fósseis, aterros sanitários e queimadas. O restante vem de fontes naturais, como áreas alagadas.
O óxido nitroso atingiu 339,1 ppb, 26% acima do nível de 1750, alta de 1,1 ppb sobre 2024, em linha com a média anual da década. O gás responde por 6% da força radiativa e, por molécula, contribui cerca de 270 vezes mais para o aquecimento que o CO2. A principal origem humana é o uso de fertilizantes na agricultura. Também contribuem a queima de vegetação e alguns processos industriais.
O que esperar para 2026
Dados da agência americana NOAA citados no relatório mostram que, entre 1990 e 2025, o efeito de aquecimento dos gases de longa duração cresceu 56%. O CO2 respondeu por cerca de 81% desse aumento.
A OMM lembra que os números medem o total acumulado na atmosfera, e não só o que foi emitido no último ano. Cerca de metade do CO2 liberado a cada ano fica no ar. Entre 2015 e 2024, segundo o relatório, 50% das emissões humanas se acumularam na atmosfera, 29% foram para os oceanos e 21% para a terra. Essa capacidade de absorção varia com o clima. Por isso, mesmo com emissões globais praticamente estáveis em 2025, segundo relatório do Pnuma divulgado na semana passada, as concentrações continuam subindo.
Para este ano, a agência prevê nova alta do CO2. Um El Niño intenso pode voltar a reduzir a absorção de carbono pela vegetação. O fenômeno já aparecia nas contas da OMM em maio, quando a agência projetou cinco anos de calor recorde e o retorno do El Niño.
A agência alerta ainda que as mudanças climáticas podem diminuir a capacidade dos oceanos de capturar CO2, deixando uma parte maior das emissões no ar. Como o gás fica na atmosfera por décadas e até séculos, o efeito vai muito além das emissões de hoje. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, sequência que em março levou a OMM a confirmar a última década como a mais quente da história.
O relatório também aponta gases menos conhecidos. Os clorofluorcarbonos (CFCs), que aquecem a atmosfera e destroem a camada de ozônio, seguem em queda. Já os HCFCs e HFCs, que os substituíram na indústria, aumentam, embora ainda em baixa concentração. Os gases halogenados respondem por 12% da força radiativa. O documento alerta ainda para o hexafluoreto de enxofre (SF₆), usado como isolante elétrico em equipamentos de distribuição de energia: sua concentração é três vezes maior que em meados da década de 1990, e o gás permanece mais de 1.900 anos na atmosfera.
Outra preocupação, segundo a Agência Brasil, é o hidrogênio (H₂), cotado como fonte de energia limpa, mas que pode vazar de dutos, tanques e células de combustível. O gás não aquece diretamente a atmosfera, mas consome hidroxilas, moléculas que ajudam a limpar o ar ao reagir com o metano. Com menos hidroxilas disponíveis, o metano permanece mais tempo na atmosfera, o que contribui de forma indireta para o aquecimento.