A Organização Meteorológica Mundial (OMM) publicou nesta quinta-feira (28) projeções que apontam temperaturas médias globais em níveis recordes nos próximos cinco anos — com 75% de probabilidade de que a média entre 2026 e 2030 ultrapasse 1,5°C acima dos padrões pré-industriais.
O relatório, compilado pelo Serviço Meteorológico do Reino Unido, traz ainda alerta específico para o Pacífico tropical, com tendência preocupante de El Niño prevista especialmente para 2027 e 2028.
As temperaturas anuais de superfície global devem se manter entre 1,3°C e 1,9°C acima da média pré-industrial (1850-1900) durante os próximos cinco anos, segundo o boletim de previsões climáticas decenais da OMM. O intervalo evidencia não apenas calor persistente, mas uma faixa de variação que inclui cenários de aquecimento mais severo.
Há 91% de probabilidade de que pelo menos um ano entre 2026 e 2030 ultrapasse temporariamente 1,5°C — limite que já foi cruzado em 2024, quando a temperatura média global ficou cerca de 1,55°C acima dos padrões pré-industriais. Além disso, 86% de chance apontam para a quebra do próprio recorde de 2024 nesse período.
El Niño e a cascata climática
O El Niño, fenômeno que aquece a superfície do Pacífico equatorial e provoca efeitos em cascata no clima global por meses, é apontado como variável crítica para 2027 e 2028. O último ciclo, em 2023-2024, coincidiu com os anos mais quentes da história. Com mais de 90% de probabilidade de retorno do El Niño a partir de setembro, as projeções da OMM para 2027 e 2028 ganham contornos ainda mais concretos — e preocupantes para o Brasil.
A OMM esclarece que o Acordo de Paris estabelece seus limites de 1,5°C e 2,0°C como metas de longo prazo, avaliadas em períodos de aproximadamente 20 anos. A ultrapassagem pontual desses valores em anos isolados não indica que os objetivos climáticos estejam comprometidos — mas a frequência crescente desses eventos é sintoma inequívoco de aquecimento progressivo.
O contexto histórico reforça a gravidade do alerta: os anos de 2015 a 2025 constituem os 11 mais quentes já registrados, segundo levantamento divulgado pela OMM em março. A tendência não apenas persiste como se acelera, de acordo com as novas projeções.
Ártico em ritmo acelerado
O relatório destaca que o aquecimento no Ártico deve superar de forma clara a média global. Nos próximos cinco invernos prolongados do Hemisfério Norte (novembro a março), a temperatura na região deverá ser 2,8°C acima da normal histórica de 1991-2020. Previsões para 2026-2035 indicam também redução do gelo nos mares de Barents, Bering e Okhotsk, com precipitação acima da média nas altas latitudes.
A tendência global descrita pela OMM já tem espelho regional: relatório da própria agência mostrou que a América Latina e o Caribe vivem o período de aquecimento mais acelerado desde 1900, com temperaturas subindo 0,26°C por década.
Os oceanos também funcionam como termômetro da crise. Em maio, o Copernicus havia alertado que a temperatura marinha estava às vésperas de um novo recorde histórico, coincidindo com o retorno iminente do El Niño que a OMM agora aponta como ameaça central para 2027 e 2028.
