Política

Reeleito, Lula terá de negociar com Congresso de maioria oposicionista a partir de 2027

PL de Flávio Bolsonaro chega com bancada recorde, mas Motta soma 15 partidos, incluindo o PT, e Alcolumbre já articula apoios para manter o controle da pauta
Congresso Nacional em Brasília, símbolo da governabilidade de Lula no Congresso após a reeleição

Reeleito para o quarto mandato, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai governar a partir de 2027 com um Congresso de maioria oposicionista. É um cenário que pressiona a governabilidade do petista e obriga o Planalto a negociar cada projeto.

Segundo apuração do g1, o principal obstáculo é o crescimento do PL, partido de Flávio Bolsonaro, derrotado no segundo turno. Pesa também o apoio que siglas de centro deram ao bolsonarista na reta final da disputa.

Centrão fechou com Flávio no segundo turno

PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e Novo declararam apoio a Flávio depois que ele saiu do primeiro turno à frente de Lula. Juntas, essas legendas somam 245 deputados e 51 senadores.

O MDB se dividiu: parte da sigla ficou com o bolsonarista, enquanto políticos do Norte e do Nordeste permaneceram ao lado de Lula.

Uma das primeiras pautas a testar essa correlação de forças será a PEC da passagem gratuita no transporte público. A promessa, feita na reta final da campanha, só sai do papel com o aval do Congresso. A proposta foi encaminhada por Lula ao Parlamento em 21 de outubro e prevê destinar R$ 12 bilhões em emendas parlamentares para financiar o transporte gratuito aos fins de semana e feriados a partir de 2027. Para isso, o texto reserva 26,8% das emendas individuais e de bancada de execução obrigatória, sem aumentar o total destinado às emendas. O PT quer votar a PEC ainda em 2026.

Reaproximação rendeu vitórias

Nos últimos meses, Lula reconstruiu a relação com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A aproximação garantiu ao governo vitórias como o fim da taxa das blusinhas e o perdão da dívida dos Microempreendedores Individuais (MEIs).

O caminho não foi linear. Divergências em torno do PL Antifacção e da aprovação do projeto que reduz as penas de condenados pelos atos de 8 de Janeiro desgastaram a relação entre o Executivo e a Câmara. Em fevereiro de 2026, um jantar promovido por Lula na Granja do Torto marcou a reaproximação, e em agosto Motta declarou apoio à reeleição do petista durante evento na Paraíba, seu reduto eleitoral. Antes disso, o presidente da Câmara havia atuado para que o Republicanos mantivesse neutralidade no primeiro turno.

Corrida antecipada pelo comando das Casas

A eleição para as presidências da Câmara e do Senado acontece em fevereiro de 2027, com a posse da nova Legislatura, mas as articulações já começaram em Brasília. Motta e Alcolumbre querem manter o poder de pauta, isto é, a prerrogativa de decidir o que vai a votação.

Quem antecipou a disputa foi o próprio PL: ainda na campanha, o partido prometia eleger parlamentares suficientes para controlar o Congresso. O discurso não agradou ao Centrão, que perdeu cadeiras justamente para a legenda.

Na Câmara, Motta já reúne o apoio de 15 partidos: os do Centrão, além de PDT, PSB, PSD, MDB e das federações PSDB-Cidadania e Solidariedade-PRD. Na terça-feira (27/10), a sinalização de adesão do PT se confirmou: a federação formada por PT, PV e PCdoB anunciou apoio à reeleição do deputado, depois de reunião com integrantes do partido na residência oficial da Presidência da Câmara, na segunda-feira (26/10) à noite, de nova reunião da bancada na manhã de terça, com deputados em exercício e eleitos, e de um encontro rápido com Motta. O PT já havia integrado o bloco do paraibano na eleição de 2025 e hoje ocupa a Primeira Secretaria da Mesa Diretora. Do outro lado estão os 121 deputados do PL, a maior bancada de um único partido desde a Constituinte. Logo após o primeiro turno, essa bancada recorde já embaralhava a disputa pela presidência da Casa.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), justificou a decisão por três razões: garantir a governabilidade e a tramitação das pautas nos próximos quatro anos; mostrar que a aproximação com o Centro é compatível com o regime democrático e afasta a influência da extrema-direita; e impedir que o PL conquiste as presidências da Câmara e do Senado. “Nesse momento a nossa responsabilidade é impedir isto, porque nós sabemos o que eles significam em termos de democracia, de soberania, de direitos do povo”, declarou.

Se Motta vencer, o PL pode ficar sem postos-chave, como o comando da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a mais importante da Câmara, e sem espaço na Mesa. Nesse caso, terá de negociar com o Centrão. Esse é justamente o objetivo dos deputados do PT, que buscam isolar o PL do bloco que será formado para a reeleição de Motta e da definição de cargos da Mesa e das comissões. Nas conversas com o presidente da Câmara, o partido pleiteia, além de manter espaço na Mesa, o comando de comissões consideradas estratégicas, entre elas a CCJ, a Comissão Mista de Orçamento (CMO) e a Comissão de Finanças e Tributação (CFT).

Segundo projeções de técnicos do Congresso levantadas pelo g1, se o bloco chegar a pelo menos 17 partidos, as 15 primeiras escolhas de comissões para presidir ficariam com o PT ou com legendas do Centrão. O PL cairia para a 16ª escolha, em vez de ter preferência entre as três primeiras, o que poderia levá-lo a colegiados menos prestigiados, embora ainda mantivesse sete comissões. A conta considera ainda a federação PSOL-Rede, que não decidiu: a bancada pretende se reunir na próxima semana e avalia, entre outros fatores, se haverá acordo para mudar o sistema eleitoral. O Centrão articula com Motta a troca do sistema proporcional pelo distrital misto, o que o PSOL rejeita por avaliar que seria prejudicado em alguns estados.

Senado é a prioridade do PL

No Senado, o quadro é mais complexo. A Casa é estratégica para o PL porque cabe aos senadores julgar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Pelo regimento, porém, a abertura do processo depende do presidente do Senado.

Senadores avaliam que o PL se precipitou ao anunciar essa intenção e saiu do primeiro turno tratando o comando do Congresso como garantido. O partido terá a maior bancada da Casa em 2027, mas Alcolumbre aposta em rachar esses votos. Parte dos senadores da legenda integra seu grupo político, caso do vice-presidente do Senado, Eduardo Gomes (PL-TO).

Aliados de Alcolumbre calculam ter ao menos 49 votos, o mesmo total que Pacheco obteve em 2023. Outros interlocutores trabalham com uma projeção mais apertada, de 44.

Na terça-feira (27/10), Alcolumbre ganhou um apoio formal: a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, declarou em nota apoio à sua recondução à presidência do Senado e do Congresso. O texto, assinado pelos presidentes nacionais das siglas, Antonio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (PP), afirma que a permanência do senador contribui para a estabilidade institucional e para a harmonia entre os Poderes. Somadas, as bancadas dos dois partidos terão 12 dos 81 senadores na nova composição, e o vencedor precisa de 41 votos.

A conta dos votos

Sem maioria, o PT dependerá de aliados para aprovar projetos de lei, PECs e projetos de lei complementar. Em agosto de 2025, Lula já cobrava do PT uma bancada maior e alertava que, sem base mais ampla, o governo não aprovaria suas pautas.

Para abrir um processo de impeachment contra o presidente da República, o vice ou ministros, são necessários 342 votos na Câmara. No Senado, o afastamento exige 54 votos. No caso de ministros do STF, o processo tramita apenas no Senado, com o mesmo quórum. Já uma CPMI requer 171 deputados e 27 senadores.