As áreas úmidas do Cerrado guardam até 20 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, seis vezes mais do que uma área equivalente de terras baixas da Amazônia.
O cálculo é do primeiro estudo a estimar o estoque de carbono dos solos turfosos do bioma, publicado na revista New Phytologist. O mapeamento por satélite indica que essas veredas cobrem até 16,7 milhões de hectares — 2% do território brasileiro.
Os números aparecem enquanto o Código Florestal exige reserva legal de apenas 20% nas propriedades do Cerrado, contra 80% na Amazônia.
Quatro metros abaixo da savana
A equipe liderada por Larissa Verona, então mestranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coletou turfa em seis pontos dentro e no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, chegando a 4 metros de profundidade — mais do que os próprios pesquisadores esperavam encontrar.
Levantamentos anteriores pararam em 1,6 metro, e a maioria nem passou dos primeiros 100 centímetros. Por isso o artigo conclui que os estoques de carbono do bioma podem ter sido subestimados entre 55% e 90%, o que coloca as veredas no mesmo patamar das turfeiras da Indonésia e da Bacia do Congo.
“Como podemos estar tão avançados no século 21 e ainda não conhecer esse sistema e todo o carbono que ele armazena?”, disse Rafael Oliveira, coautor do estudo e pesquisador da Unicamp, à Mongabay Brasil, em reportagem de Xavier Bartaburu. “Eu acho que o Cerrado pode ser outro ícone climático, como a Amazônia.”
Para Susan Page, especialista em turfeiras tropicais da Universidade de Leicester, que não participou da pesquisa, o trabalho traz “várias percepções novas” sobre como esses solos se formam. Até agora, segundo ela, esse carbono ficava fora das estimativas nacionais e globais e dos modelos climáticos.
Um reservatório antigo e instável
Medições feitas ao longo de um ano mostraram que 70% das emissões anuais dessas áreas saem na estação seca, com pico em setembro. Com estiagens mais longas, drenagem e incêndios mais frequentes, os autores alertam que o bioma ameaça liberar “um reservatório antigo e anteriormente estável de carbono” — parte dele com mais de 20 mil anos.
Bioma de sacrifício, por lei
Desde os anos 1970, sucessivos governos trataram o Cerrado como fronteira agrícola, com subsídios a fertilizantes e irrigação por pivô central. Hoje três quartos do bioma são de propriedade privada — na Amazônia, é cerca de um terço — e 55% da vegetação nativa já foi derrubada. O achado se soma a um levantamento que já apontava a perda de 40 milhões de hectares de vegetação nativa em quatro décadas.
No oeste da Bahia, a Associação Comunitária dos Pequenos Criadores do Fecho de Pasto de Clemente calcula que mais de 90% das terras comunitárias foram tomadas pelo monocultivo. “O agronegócio cortou a vegetação nativa, comprimiu o solo e drenou as nascentes. Já não tem peixe nos rios”, afirmou a agricultora Elizete Carvalho Fagundes Barreto. Sem regularização fundiária, avalia, proteger o território segue sendo “um sonho e uma luta”.
Enquanto o artigo passava pela revisão por pares, Mato Grosso aprovou uma lei que abre à drenagem agrícola as áreas úmidas dos rios Araguaia e Guaporé — justamente as identificadas como relevantes para o carbono. Afloramentos de água subterrânea já são protegidos pela Lei de Proteção da Vegetação Nativa, mas a regra costuma ser ignorada no bioma, diz Oliveira: “Estamos fazendo vista grossa”. O Ibama não respondeu aos pedidos de comentário.
Estoques de carbono, porém, podem não bastar para romper o consenso político sobre o Cerrado, avalia Gustavo Oliveira, pesquisador de ecologia política da Universidade Clark. Ele defende atacar os subsídios e incentivos fiscais à expansão agrícola: “Precisamos olhar para quem mais concentra o consumo de água”. Enquanto isso, outro trecho do bioma virou unidade de conservação de proteção integral no Distrito Federal.