Quanto mais a floresta caiu, maior foi a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula no primeiro turno da eleição presidencial. Essa é a conclusão de um estudo do Instituto Juruá, que cruzou alertas de desmatamento com o voto em 769 municípios da Amazônia Legal.
A análise considerou a perda florestal acumulada entre 2020 e 2025. Ela mediu não só quem venceu em cada cidade, mas também a distância relativa entre os dois candidatos. Segundo o instituto, o desmatamento explica cerca de 16,6% dessa variação.
O que o estudo encontrou
O primeiro turno deu a vitória ao candidato do PL, e a direita bolsonarista também ganhou terreno na Amazônia Legal. Ao olhar apenas para essa região, os pesquisadores concluíram que a correlação entre desmatamento e margem de votos a favor de Flávio Bolsonaro é “estatisticamente robusta”.
A diferença aparece nos números absolutos. Nos municípios em que Flávio Bolsonaro venceu, a mediana da perda florestal acumulada no período foi de cerca de 3,9 mil hectares. Nos municípios em que Lula venceu, ficou em torno de 800 hectares.
Padrão vale dentro de cada estado
A associação entre derrubada da floresta e voto conservador se mantém mesmo quando a comparação é feita entre municípios do mesmo estado. Para os autores, isso afasta a hipótese de que o resultado reflita “apenas disparidades regionais” e reforça “a existência de uma geografia política associada à transformação da floresta”.
O estudo ressalta que a escolha do voto depende de vários fatores. Ainda assim, os 16,6% atribuídos ao desmatamento indicam o peso das mudanças no território amazônico sobre o comportamento eleitoral. O contraste entre governos já aparecia nos dados do Prodes: segundo análise da InfoAmazonia, o desmatamento sob Jair Bolsonaro derrubou 690 mil árvores por dia a mais que no atual governo Lula.
Floresta, pasto e poder político
Para a pesquisadora Camila Duarte Ritter, uma das responsáveis pelo levantamento, a força de Flávio Bolsonaro nas áreas mais desmatadas não é acidental. “Quando a floresta é convertida em pastagem, não estamos falando apenas de uma mudança na cobertura do solo, mas também de uma transformação nas relações de trabalho, na concentração fundiária, na distribuição da riqueza e nas formas de exercer o poder político”, disse ela à Mongabay, em texto editado por Xavier Bartaburu.
Ritter afirma que, se o bolsonarismo vencer, “novos atores econômicos ganham influência e isso pode modificar, inclusive, as expectativas da população sobre o que significa desenvolvimento”.
Menos desmatamento não significa mais votos para Lula
O trabalho evita uma leitura automática: reduzir a derrubada não se converte diretamente em votos para o atual presidente. A conclusão é que políticas de combate ao desmatamento “podem produzir resultados ambientais mais rapidamente do que transformam as coalizões sociais e políticas estabelecidas nos territórios”.
O período analisado vai só até 2025. O balanço mais recente do Imazon mostrou desmatamento de 2.053 km² entre janeiro e agosto de 2026, alta de 2%, concentrado em Pará, Mato Grosso e Amazonas.