Cumprir o Código Florestal pode abrir até 3,1 milhões de empregos na Amazônia e no Cerrado. Para isso, seria preciso restaurar parte dos cerca de 20 milhões de hectares de passivos ambientais em Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente.
A estimativa é de um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), divulgado em 13 de outubro. O próprio levantamento aponta o gargalo: a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) segue lenta e desigual entre os estados.
Empregos dependem do ritmo da restauração
As projeções consideram a recuperação de 20% a 50% dos passivos. Conforme a fatia restaurada, a Amazônia abriria de 0,7 a 1,9 milhão de vagas, e o Cerrado, de 0,5 a 1,2 milhão. Segundo o estudo, a restauração também ajudaria o Brasil a cumprir suas metas climáticas e os planos nacionais de recuperação da vegetação.
Sobre como recuperar essas áreas, uma pesquisa no Pará mostrou que poucas espécies de árvores respondem por metade da regeneração natural, o que pode orientar projetos desse tipo.
Vegetação excedente vira ativo
Do outro lado da conta, o país tem cerca de 70 milhões de hectares de vegetação nativa além do que a lei exige. O Cerrado concentra aproximadamente 25 milhões de hectares desse excedente, e a Amazônia, cerca de 6,2 milhões. O tema ganha peso depois que dados do Inpe mostraram o desmatamento em mínimas históricas nos dois biomas, com o Cerrado ainda esbarrando no desmate legal.
O instrumento para pagar por essa conservação é o mercado de Cotas de Reserva Ambiental, que o Serviço Florestal Brasileiro anunciou que colocaria em operação em outubro de 2025. Com um valor de referência de R$ 500 por hectare ao ano, o estudo calcula um potencial de cerca de R$ 20,6 bilhões anuais nos dois biomas.
No Cerrado, que reúne a maior parte desse valor, destacam-se Mato Grosso (R$ 2,8 bilhões por ano), Minas Gerais (R$ 2,7 bilhões) e Piauí (R$ 2,6 bilhões). Na Amazônia, o potencial é de R$ 3,3 bilhões ao ano, puxado por Pará (R$ 1,19 bilhão) e Mato Grosso (R$ 832 milhões).
“Para a indústria, trata-se de uma oportunidade concreta para reduzir custos de compliance, atrair investimentos ESG e monetizar a conservação”, disse Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI.
Cadastros parados na fronteira agrícola
O principal obstáculo apontado é a análise dos cadastros. No Matopiba, região de expansão agrícola que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, menos de 1% dos registros foi analisado. No Cerrado, só São Paulo e Mato Grosso do Sul passam de 60%. Na Amazônia, o Pará, estado mais adiantado, se aproxima de 50%.
Para Bomtempo, conflitos nos cadastros, sobreposição com áreas protegidas e demora na titulação de terras criam insegurança jurídica, encarecem a conformidade das empresas e afastam investimentos voltados à sustentabilidade.
As diferenças entre os biomas também estão na lei: um estudo sobre as veredas lembrou que o Código Florestal exige reserva legal de apenas 20% no Cerrado, contra 80% na Amazônia.
Bioindústria depende de segurança jurídica
O estudo vê a bioindústria como um caminho para diversificar a economia. O Pará reúne 46% das iniciativas do país, seguido por Amazonas (18%) e Rondônia (7%). No Cerrado, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão têm muitos empreendimentos ativos, mesmo com forte presença do agronegócio convencional.
Formadas sobretudo por cooperativas e pequenos e médios produtores, essas cadeias dependem de vegetação nativa conservada, de terra regularizada e de CAR validado, exigido para licenciamentos, certificações e acesso a financiamento internacional. Em 2026, além da lentidão dos estados, tramitam projetos de lei que buscam liberar o uso de áreas protegidas para irrigação e anistiar embargos.