A Polícia Federal identificou uma divergência contábil severa nas contas de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro: mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil pelo fundo Havengate, mas só US$ 2,8 milhões retornaram ao país.
O dado está entre os documentos que a PF entregou ao STF nesta sexta-feira (16), ao pedir a prorrogação por 90 dias do inquérito sobre o financiamento do longa, conforme mostrou o g1.
O caminho do dinheiro
Segundo as investigações, os recursos partiram da Entre Investimentos, empresa ligada a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e seguiram para o Havengate, fundo nos Estados Unidos administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
A diferença de cerca de US$ 9,2 milhões entre o que saiu e o que voltou reforça uma das linhas de investigação da PF: a de que o filme, em vez de destino real do dinheiro, tenha servido como “narrativa de cobertura para a ocultação, simulação e desvio de recursos”.
A Entre Investimentos já está no centro de outra frente do caso: o dono da empresa, Antônio Carlos Freixo Júnior, teve delação premiada homologada pelo ministro André Mendonça no início de setembro.
Além dos pagamentos de Vorcaro, a PF apura o papel de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, no financiamento da obra.
O que a produtora declarou
Em junho, a Go Up Entertainment informou que o longa custou ao menos R$ 75,1 milhões, sendo R$ 54 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. O dado consta de documento anexado ao inquérito da Polícia Civil que investiga a dona da produtora, a empresária Karina Ferreira da Gama.
Em nota, a defesa da Go Up afirmou que a perícia “irá revelar a lisura e legalidade de todas as captações do financiamento” do filme.
Eduardo Bolsonaro e as emendas
Eduardo Bolsonaro nega ter recebido dinheiro do fundo ligado a Vorcaro. Ele alega que seu status migratório nos Estados Unidos impediria esse tipo de repasse e diz ter informado às autoridades americanas a origem de seus recursos.
O ex-deputado, que aparece como produtor-executivo em contrato do filme revelado em maio, afirma ter investido US$ 50 mil no projeto e recebido o valor de volta, mas nega que o reembolso tenha passado pelo Havengate.
Em paralelo, o ministro Flávio Dino conduz no STF a apuração sobre R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo deputado Mario Frias a entidades presididas por Karina Ferreira da Gama, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). O caso foi aberto a pedido da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), e a Go Up não foi alvo dos mandados de busca.
Frias, roteirista e produtor-executivo do longa, disse ao STF em maio que as emendas não financiaram a produção. As três frentes de investigação sobre o filme foram detalhadas em junho, quando o Supremo definiu os relatores dos inquéritos.