A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF), na quinta-feira (3/9), uma proposta de delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos e Participações. Na quarta-feira seguinte (9/9), o ministro André Mendonça homologou o acordo, cuja decisão foi mantida sob sigilo.
A empresa dele é apontada por investigadores como intermediária de repasses à produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de ter sido usada para busca de moeda destinada a pagamentos em dinheiro vivo.
O acordo foi assinado em 8 de agosto, no mesmo dia da delação de João Carlos Mansur, dono da gestora Reag, ambas no âmbito das investigações do caso Master. Na terça-feira (8/9), véspera da homologação, o empresário e sua defesa participaram de audiência com um juiz auxiliar de Mendonça para avaliar o acordo. O magistrado questionou se a assinatura havia sido voluntária — condição exigida para que uma delação seja homologada —, e Freixo Júnior confirmou que sim.
Rastro de R$ 159 milhões até o Dark Horse
Relatórios de inteligência financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostram que a Entre Investimentos recebeu recursos de fundos apontados pela Polícia Federal como parte da fraude do Banco Master. A Entre Investimentos, empresa cujo dono assinou acordo de delação com a PGR, já havia sido identificada em maio como intermediária que recebeu R$ 159,2 milhões de fundos investigados pela PF por fraudes no Banco Master. Ainda não está claro quanto desse total foi de fato destinado ao filme ou à sua produtora.
A maior parte dos repasses, de R$ 139,2 milhões, veio da Sefer Investimentos, alvo da 2ª fase da operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro por suas relações com Daniel Vorcaro. Outros R$ 20 milhões vieram do fundo Gold Style, administrado pela Reag e também ligado ao banqueiro, que movimentou quase R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela PF como parte do esquema de lavagem de dinheiro do PCC no mercado financeiro.
Em sua delação, Freixo Júnior afirmou ser responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe de Vorcaro, movimentando cerca de R$ 1,3 bilhão entre 2020 e 2025. Os pedidos chegavam por WhatsApp, feitos pelo próprio Vorcaro ou por Fabiano Zettel, seu cunhado. Para obter o dinheiro em espécie, Freixo Júnior recorria a três operadores, também acionados pelo aplicativo, que conseguiam os valores por contatos no Brás, no Centro de São Paulo, e no setor de combustíveis — incluindo uma distribuidora que, segundo o delator, já apareceu nas investigações da Operação Carbono Oculto. Os valores eram entregues em malas no mesmo dia, para evitar riscos com o armazenamento: geralmente no estacionamento do subsolo da sede da Entre, na Rua Iguatemi, no Itaim Bibi, ou na garagem do prédio onde Zettel morava, no mesmo bairro. Freixo Júnior recebia 1% pelo serviço; os operadores, 4%. O dinheiro era destinado, segundo ele, a pagamentos de propina.
O empresário declarou ainda ter feito sete transferências para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, a título de “subscrições de cotas”, entre janeiro e setembro de 2025, totalizando US$ 12,333 milhões — equivalente a R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025. As transferências foram operacionalizadas a partir de uma “Letter of Agreement” (carta de compromisso) assinada em janeiro de 2025 entre a Entre Investimentos e o fundo, após contato por e-mail com Paulo Calixto, gestor fiduciário do Havengate. A solicitação inicial de Vorcaro previa cerca de US$ 24 milhões em mais de dez subscrições entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, mas apenas sete foram concluídas antes de ele ser preso, em novembro de 2025. Antes de cada operação, Vorcaro contatava Freixo Júnior por WhatsApp para formalizar a subscrição e confirmar o pagamento. O empresário afirmou não ter tido conhecimento do destino final dos valores enviados ao fundo.
Freixo Júnior revelou ainda ter realizado outros pagamentos no exterior por meio de sua empresa Entre Investiments and Arbitrage Ltd., sediada em Nassau, nas Bahamas, a partir de “invoices” (faturas) enviadas por Vorcaro, sem detalhar os beneficiários. Uma das linhas de investigação da PF é se recursos mantidos em paraísos fiscais também foram enviados ao fundo Havengate ou a pessoas a ele relacionadas.
Empresa liquidada pelo Banco Central
A Entre Investimentos integra o grupo Entrepay, de Freixo Júnior, liquidado em março pelo Banco Central por comprometimento da situação econômico-financeira, irregularidades no cumprimento das normas do setor e risco anormal a credores.
Repasse extra motivado por cobrança de Flávio Bolsonaro
Na primeira semana de setembro, a imprensa revelou que Vorcaro fez um repasse adicional de US$ 1,6 milhão ao Dark Horse em setembro de 2025, dias depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência, cobrar parcelas atrasadas. O acordo total previa pagamento de R$ 124 milhões, dos quais R$ 61 milhões já haviam sido pagos pelo dono do Master. A delação de Freixo Júnior confirmou o pagamento de setembro — contrariando a afirmação de Flávio de que o último repasse de Vorcaro havia sido em maio de 2025.
Os recursos eram enviados ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas que repassava o dinheiro à Go Up Entertainment, produtora do filme. Entre os administradores do fundo estava Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A PF investiga se a totalidade do dinheiro foi usada no filme, como afirmam Flávio Bolsonaro e a produtora, ou se parte foi destinada a outros fins — inclusive para bancar Eduardo Bolsonaro nos EUA. A Go Up contratou uma auditoria particular que, em junho de 2026, concluiu que as contas do Dark Horse estão regulares — com custo total de R$ 75 milhões, bancados pelo Havengate —, mas os documentos que fundamentam essa conclusão, como as notas fiscais dos gastos do filme, não foram tornados públicos. A assessoria de Flávio Bolsonaro, questionada sobre os relatos do delator, remeteu às informações já apresentadas pela produtora.
Em 10 de setembro, a Polícia Federal deflagrou uma operação de busca e apreensão sobre o financiamento do Dark Horse. Os alvos foram a produtora Karina Gama, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e outras 20 pessoas, sem mandados de prisão. Essa investigação corre sob a relatoria do ministro Flávio Dino no STF e foca o possível uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que chegou a entidades ligadas à produtora — linha distinta do inquérito conduzido por André Mendonça, que trata dos repasses privados de Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro.
O ministro André Mendonça — o mesmo que em julho autorizou a abertura do inquérito da PF sobre os repasses ao Dark Horse — foi quem recebeu as duas propostas de delação e, na quarta-feira (9/9), homologou o acordo de Freixo Júnior. A PGR, que em junho recebeu de Mendonça a decisão sobre como prosseguir com o caso, retornou ao gabinete do ministro com duas propostas de colaboração — completando um ciclo de três meses na tramitação do caso.