Meio ambiente

Cheiro sintético de fruta atrai morcegos para restaurar a Mata Atlântica

Em duas décadas de pesquisa, odores de frutos maduros levaram os animais a áreas degradadas, onde eles podem espalhar milhares de sementes por hectare
Floresta densa com morcegos em voo ao entardecer, símbolo da restauração florestal da Mata Atlântica por morcegos

Pesquisadores brasileiros querem usar o faro dos morcegos frugívoros como ferramenta de restauração florestal na Mata Atlântica.

Há mais de 20 anos, cientistas da Embrapa Florestas, do Instituto Federal do Paraná (IFPR) e da PUC do Paraná testam cheiros de frutos maduros, naturais e sintéticos. O objetivo é atrair esses animais a áreas degradadas, onde eles podem espalhar sementes.

Ouvidos pela Mongabay Brasil em reportagem de Xavier Bartaburu, os pesquisadores defendem que a técnica complemente os métodos convencionais, sem substituí-los.

Chuva de sementes durante o voo

Segundo dados da Embrapa Florestas, os morcegos frugívoros dispersam sementes de mais de 140 espécies de plantas na Mata Atlântica. Eles podem depositar entre 600 e 25.930 sementes por hectare por dia, inclusive em áreas degradadas.

A vantagem sobre as aves está no modo de dispersão: os morcegos soltam as sementes durante o voo, enquanto a maior parte dos pássaros só as espalha ao pousar. Espécies como o morcego-da-cara-branca (Artibeus lituratus), o morcego-de-cauda-curta-comum (Carollia perspicillata) e o morcego-de-ombros-amarelos (Sturnira lilium) digerem os frutos em cerca de 30 minutos. Eles também cruzam vários quilômetros de lavouras entre as áreas de alimentação e os abrigos.

Estima-se que um único indivíduo produza, em uma noite, uma chuva de centenas de sementes.

Do fruto maduro ao composto de farmácia

A ideia de imitar o aroma de frutos maduros surgiu no início dos anos 2000. Alguns anos depois, Sandra Bos Mikich, da Embrapa Florestas, e Gledson Vigiano Bianconi, do IFPR, testaram no Parque Estadual Vila Rica do Espírito Santo, no Paraná, frutos artificiais impregnados com óleo essencial de pariparoba (Piper gaudichaudianum), um dos preferidos dos morcegos. Levado a uma área agrícola a 50 metros da borda da floresta, o experimento favoreceu a aproximação dos animais.

Produzir esse óleo em escala, porém, seria caro e exigiria uma coleta extensa de frutos, o que tiraria alimento da fauna. “Isso seria ruim em termos ambientais”, disse Mikich. Só a pariparoba libera 95 compostos diferentes, que variam conforme o estágio de maturação e o horário de coleta.

A saída foi separar as essências em frações e testar quais delas atraíam mais os animais. A equipe chegou a compostos sintéticos presentes em frutos dos gêneros Ficus, Piper e Solanum, que a indústria farmacêutica já fabrica. “Eu posso colocar esses odores exatamente onde eu quero que a chegada de sementes aumente”, afirmou Mikich.

Aliados, não substitutos

Em campo, os morcegos fazem voos exploratórios em círculos ao redor do ponto onde o odor é liberado, por até quatro minutos. Segundo a ciência, esse tempo basta para que eles dispersem milhares de sementes. Nos pontos de atração, 73,3% das sementes encontradas eram de espécies pioneiras, plantas que se estabelecem em áreas abertas e preparam o terreno para outras.

Bianconi conta que a equipe marcou mais de 1.800 morcegos e acompanhou 32 deles por radiotelemetria. A conclusão foi que a paisagem agrícola impõe riscos, mas não impede os deslocamentos entre fragmentos de floresta. Para ele, o desafio agora é transformar a técnica em um protocolo padronizado, que possa ser aplicado em diferentes ecossistemas.

Pedro Brancalion, especialista em restauração florestal da USP, faz um alerta: os morcegos também podem espalhar plantas indesejadas, como a castanhola (Terminalia catappa), uma árvore exótica. “Os morcegos não querem saber se são exóticas, nativas, invasoras ou ameaçadas. Eles querem se alimentar”, disse.

O atrativo químico só funciona se os dispersores já circulam pela região e encontram fragmentos que sirvam de habitat. O que chega ao solo também importa: um estudo recente mapeou 48 zonas de transferência de sementes para orientar a recuperação das florestas diante do clima futuro.

Como os morcegos frugívoros de todo o mundo usam o olfato para buscar alimento, Lays Cherobim Parolin, da PUC-PR, vê potencial para que a ferramenta seja usada também fora do Brasil.