Meio ambiente

Reflorestamento aéreo lança 2,6 milhões de sementes de juçara sobre mata capixaba

Área de 80 hectares em Rio Novo do Sul havia perdido a palmeira que alimenta a fauna e sustenta a renda de dezenas de famílias
Vista aérea da Mata Atlântica simboliza reflorestamento com sementes de juçara no Espírito Santo

Um helicóptero sobrevoou 80 hectares de Mata Atlântica fechada em Rio Novo do Sul, no sul do Espírito Santo, e despejou cerca de 2,6 milhões de sementes de palmeira-juçara — quatro toneladas — para recolocar a espécie num trecho onde ela havia desaparecido.

A operação, inédita no estado, foi conduzida pela prefeitura em parceria com o Incaper e o Notaer. A aposta do reflorestamento é que, em cinco a seis anos, haja árvores adultas suficientes para que aves e mamíferos voltem a espalhar as sementes sozinhos.

Uma palmeira que morre de uma vez

A juçara (Euterpe edulis) aparece como vulnerável na lista do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira, e a razão está na própria anatomia da planta. Diferente da pupunha, ela tem caule único: cortada para a retirada do palmito, não rebrota. Morre de uma vez — e por isso a extração ilegal é crime ambiental.

Esse detalhe explica o vazio no trecho sobrevoado. O desmate predatório do passado tirou a palmeira da área e, com ela, interrompeu o próprio ciclo de regeneração, que depende de animais silvestres carregando o fruto adiante. Por alimentar dezenas de aves e mamíferos, a árvore é apelidada por biólogos de “mãe da floresta” e de “arroz e feijão da Mata Atlântica”.

A extração de palmito que fragilizou a juçara também cobrou preço da fauna: foi ela que levou a jacutinga à extinção no Espírito Santo, ave hoje alvo de um projeto de reintrodução no bioma.

GPS em vez de trilha

O voo seguiu faixas orientadas por GPS para distribuir as sementes de forma uniforme sobre o terreno acidentado, sem precisar abrir trilhas ou pisotear vegetação nativa. “É uma área densa, de mata virgem, fechada, de aproximadamente 80 hectares. Escolhemos o local devido à inexistência da palmeira-juçara na floresta e pela proximidade”, disse ao g1 o secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente, Gustavo Lourencini.

Todas as sementes nasceram na própria região e foram doadas por três agroindústrias locais de polpa. A escolha por matrizes nativas aumenta as chances de germinação e adaptação das futuras mudas. O modelo veio do Programa Pró-Juçara, da Fundação Florestal de São Paulo.

O “açaí capixaba” virou economia local

Reconhecida por lei estadual como Capital Estadual da Juçara, Rio Novo do Sul transformou a conservação da espécie em negócio. A polpa do fruto — usada em sucos, sorvetes, picolés, doces e pratos salgados — se tornou a principal fonte de renda de produtores artesanais da região.

“Hoje, a gente trabalha com mais de 60 pessoas no ramo da juçara. Ela não traz renda só para a minha família, mas para toda a comunidade de Rio Novo do Sul”, afirmou a empresária Drielem Perim Menegardo. O ingrediente ultrapassou o limite do município e ancora a Rota da Juçara, circuito turístico e gastronômico que liga a cidade a Vargem Alta.

A conta que se fecha em uma década

Nas escolas municipais, a pedagoga Dolores Paixão ajudou a criar um projeto para que as crianças deixem de associar a palmeira apenas à festa local e passem a enxergar seu valor ambiental e econômico. É essa geração que verá o resultado do sobrevoo: o produtor de mudas Natalino Marquezini prevê cachos espalhados pela região em cinco anos.

Para Drielem, o cálculo é mais longo. “Daqui a 10 ou 15 anos, os meus filhos e os filhos de todos os produtores vão ter essa renda”, disse. A prefeitura espera que a dispersão aérea sirva de modelo para outros trechos degradados da Mata Atlântica capixaba.