Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Embrapa, desenvolveram um biodetergente sem agrotóxico capaz de prolongar a vida útil de frutas e legumes após a colheita.
Em testes com laranjas, 11 das 12 frutas resistiram à inoculação direta de fungos na casca — abrindo caminho para uma solução de baixo impacto ambiental com potencial de adoção em escala global.
A pesquisa tem origem inesperada: tudo começou em 2009, com um estudo sobre dispersão de petróleo encomendado pela Petrobras. O conhecimento acumulado sobre surfactantes biológicos revelou, anos depois, um potencial inédito para combater fungos que destroem alimentos após a colheita.
A virada agrícola veio em 2014, quando o laboratório de química da UFRJ venceu um edital da Embrapa voltado à pesquisa em conservação de alimentos. A parceria resultou em mais de uma década de testes e refinamentos até a formulação atual do biodetergente.
O trabalho foi publicado recentemente em uma importante revista científica internacional — reconhecimento que consolida a credibilidade da tecnologia e amplia as possibilidades de parcerias com o setor produtivo.
A descoberta integra uma safra recente de avanços científicos brasileiros com impacto direto na agricultura — como o inoculante da pesquisadora da Embrapa Mariangela Hungria, que já substitui fertilizantes químicos em 85% das lavouras de soja do país.
Do laboratório para a cadeia global de alimentos
O próximo passo da pesquisa é testar o biodetergente em proporções maiores para avaliar a viabilidade em escala industrial. Os cientistas também investigam se a fórmula funciona em outras frutas — morango, mamão e goiaba — e em grãos como feijão e soja.
O impacto potencial é expressivo: a cadeia mundial de produção de alimentos perde centenas de bilhões de dólares por ano com produtos que estragam após a colheita. Uma tecnologia sem agrotóxico que amplie a durabilidade de frutas tropicais pode gerar ganhos significativos tanto para pequenos produtores quanto para exportadores brasileiros.
A solução também responde a uma demanda crescente por alternativas livres de pesticidas sintéticos, alinhando-se às exigências de mercados consumidores cada vez mais atentos à segurança alimentar e ao impacto ambiental dos processos produtivos.
