O anúncio do tarifaço por Donald Trump gerou apreensão, mas o impacto negativo foi limitado no Brasil. A bolsa já havia precificado parte das perdas e o dólar recuou, influenciado por fatores externos. Analistas apontam que o pessimismo diminuiu desde o anúncio e que o efeito sobre o PIB brasileiro deve ser pequeno.
Apesar da medida afetar exportações para os EUA, o real se valorizou e o Ibovespa já vinha registrando quedas antes da efetivação das tarifas.
Impacto do tarifaço já estava no radar do mercado
Segundo especialistas, o tarifaço de Donald Trump não provocou reações extremas porque grande parte do risco já havia sido antecipada e incorporada aos preços dos ativos brasileiros. O sócio da Manchester Investimentos, Marco Noernberg, lembra que a bolsa de valores já caía antes mesmo da efetivação das tarifas. Em julho, o Ibovespa recuou 4,17%, marcando o pior mês do ano até agora e a maior baixa desde dezembro de 2024.
Noernberg estima que o impacto negativo sobre o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro seja de cerca de 0,1%. “[O tarifaço] não é positivo, mas também não é algo que vá desestabilizar as ações negociadas em bolsa. Grande parte desse risco já havia sido incorporada, e as empresas mais expostas sentiram os efeitos antes mesmo da aplicação das tarifas.”
Desvalorização global do dólar e cenário político dos EUA
O recuo do dólar frente ao real e outras moedas não está diretamente ligado ao tarifaço, mas sim ao cenário político e econômico dos Estados Unidos. Dados do Banco Central mostram que, entre 13 de julho e 13 de agosto, o real se valorizou 3,7% frente ao dólar, a maior alta entre as principais moedas globais. Outras moedas, como o rand sul-africano, forint húngaro e peso chileno, também se valorizaram.
O analista Leonel Mattos explica que a queda do dólar reflete a perda de confiança dos investidores nos EUA, causada por temores de interferências políticas e insegurança jurídica. “A própria Casa Branca agrava o cenário ao anunciar medidas e recuar logo em seguida, o que gera desconfiança no mercado. Com menos investimentos nos EUA e no dólar, os recursos acabam migrando para outros países e moedas”, afirma Mattos.
Desaceleração econômica dos EUA e influência do Fed
Além das incertezas políticas, a economia norte-americana enfrenta sinais de estagflação, com crescimento fraco, inflação elevada e aumento do desemprego. Segundo Mattos, isso coloca o Federal Reserve (Fed) em uma situação delicada: reduzir juros para evitar desaceleração ou elevá-los para controlar a inflação. A taxa de juros nos EUA está hoje entre 4,25% e 4,5% ao ano, e 84% dos investidores esperam um corte já em setembro, segundo a ferramenta FedWatch, da CME.
Reflexos para o Brasil
Esses movimentos do Fed impactam diretamente o câmbio e a bolsa brasileira. O estrategista André Muller, da AZ Quest, destaca que a expectativa de cortes de juros pelo Fed pode manter a trajetória de valorização do real. “Se aumentar a expectativa de cortes de juros pelo Fed, o dólar deve continuar se desvalorizando frente a várias moedas, incluindo o real”, diz Muller.
Noernberg acrescenta que, com rendimentos menores nos títulos dos EUA, investidores buscam mercados com retornos mais altos, como o Brasil, favorecendo o real e o Ibovespa. “Um corte de juros pelo Fed pode impulsionar a bolsa e pressionar o dólar para baixo”, completa.