A confiança do consumidor brasileiro cruzou para o campo pessimista em abril pelo primeiro vez em quase um ano. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Ipsos recuou 3 pontos em relação a março e chegou a 49,2 — abaixo da linha de neutralidade de 50 pontos e no menor patamar dos últimos 11 meses.
A queda foi disseminada por todos os componentes: percepção sobre situação financeira, emprego, consumo e expectativas futuras pioraram simultaneamente. A Ipsos descreveu o movimento como uma “fadiga do otimismo” — indicação de que o brasileiro parou de projetar melhora automática no curto prazo.
Todos os termômetros no vermelho
O chamado termômetro do presente, que mede a percepção sobre a economia atual, despencou de 44,1 para 39,4 pontos em abril. O índice ligado a investimentos e consumo recuou de 50 para 45,4 pontos. O indicador de emprego retraiu para 50,3 pontos — zona limítrofe com o pessimismo —, enquanto as expectativas futuras caíram de 65,8 para 63,6.
A percepção sobre o rumo do país também encolheu. Apenas 32% dos brasileiros acreditam que o país está no caminho certo, ante 41% em dezembro de 2025. O percentual que avalia a economia local como “forte” caiu para 31%, e pela primeira vez no ano menos da metade da população — 48,2% — espera que a situação econômica de sua região melhore nos próximos seis meses.
Para Rafael Lindemeyer, líder do cluster de experiência da Ipsos, o movimento tem raízes claras: “O componente de Expectativas, que vinha sustentando o otimismo brasileiro, sofreu uma correção importante. Esse movimento sugere que o consumidor parou de projetar uma melhora automática no curto prazo, possivelmente influenciado pela persistência de juros elevados e revisões para cima nas projeções de inflação de itens essenciais, como alimentos e energia.”
Choque global com gatilho no Oriente Médio
A queda brasileira não é isolada. Potências como Estados Unidos e Reino Unido viram seus índices recuarem 2,2 e 2,1 pontos, respectivamente. A Alemanha perdeu 1,8 ponto. Na América Latina, o Chile registrou a queda mais acentuada: 7,5 pontos. Lindemeyer aponta um vetor comum: “O diagnóstico indica que esse choque de pessimismo tem um gatilho claro: os impactos econômicos decorrentes da eclosão da Guerra no Irã.”
A pressão sobre a confiança tem respaldo nos preços: o IPCA-15 de abril avançou 0,89%, puxado justamente por alimentos e combustíveis — os itens que a Ipsos aponta como vetores centrais da deterioração das expectativas do consumidor brasileiro.
Finanças pessoais no nível mais baixo do ano
A percepção sobre a própria situação financeira também piorou. Apenas 27,9% dos brasileiros classificaram sua condição atual como boa — índice que em janeiro havia chegado a 42,7%. Apesar disso, 68,2% ainda acreditam que estarão em situação melhor daqui a seis meses, o que sugere resiliência da esperança individual mesmo diante da desconfiança coletiva.
O pessimismo do consumidor tem raízes estruturais que antecedem abril. Mais da metade dos adultos brasileiros está com o CPF negativado, e o rotativo do cartão opera a 436% ao ano — contexto que explica por que a deterioração da percepção financeira pessoal vem se aprofundando desde o início do ano.
No mercado de trabalho, o recuo do indicador de emprego para 50,3 pontos no ICC encontra eco em outros levantamentos. Pesquisa da FGV Ibre apontou que o percentual de trabalhadores com medo de demissão atingiu o maior patamar histórico da série — movimento paralelo ao que o índice da Ipsos captura no componente de emprego.
Os extremos geracionais foram os mais afetados pela piora do humor econômico: a Geração Z e os Baby Boomers registraram as maiores quedas no otimismo em relação ao futuro. O dado reforça que a “fadiga do otimismo” identificada pela Ipsos não é uniforme — ela golpeia com mais força justamente quem está nos pontos mais vulneráveis da trajetória de renda e consumo.
