Saúde

USP identifica moléculas capazes de tratar fungo que ataca o pulmão

Compostos atacam enzima essencial do Cryptococcus e podem reduzir toxicidade dos tratamentos atuais
Campus da USP, onde pesquisadores encontraram moléculas contra criptococose pulmonar, destacada pela OMS

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), identificaram quatro moléculas promissoras para tratar a criptococose, doença fúngica que atinge pulmões e sistema nervoso central.

O estudo, publicado na revista ACS Omega, testou 34 compostos capazes de bloquear a urease, enzima que o fungo Cryptococcus usa para driblar a defesa do organismo humano.

Um alvo que o corpo humano não possui

A criptococose é causada pela inalação do fungo Cryptococcus, encontrado no ambiente, em árvores e fezes de pombos. Ao chegar ao pulmão, o patógeno pode ser capturado por macrófagos, células de defesa que tentam matá-lo acidificando o ambiente interno.

É aí que entra a urease: o fungo produz essa enzima para transformar ureia em amônia, neutralizando a acidez e sobrevivendo dentro da célula de defesa. Esse mecanismo, batizado de Cavalo de Troia, permite que o patógeno viaje pela corrente sanguínea sem ser percebido até atingir o sistema nervoso, onde causa a meningite criptocócica, forma mais grave da doença.

Segundo a pesquisadora Thayná Barreto, pós-doutoranda do ICB e autora do estudo, a urease foi escolhida como alvo justamente por estar ausente no organismo humano. “Se uma molécula está matando o fungo, provavelmente ela também pode matar uma célula humana”, explica, referindo-se à toxicidade dos antifúngicos atuais.

Ação rápida contra o fungo

Das 34 moléculas avaliadas, quatro inibiram a urease do Cryptococcus mesmo em concentrações muito baixas, na escala nanomolar, e mostraram ação fungicida, matando o patógeno em até duas horas em alguns casos. Os compostos também perturbaram a cápsula, a membrana plasmática e a melanina do fungo, estruturas que protegem o patógeno do sistema imune e de outros medicamentos.

Próximos passos e potencial terapêutico

Para checar a segurança dos compostos, a equipe testou as substâncias em larvas, etapa anterior aos ensaios em roedores, e nenhuma delas causou toxicidade. Simulações computacionais (in silico) reforçaram parâmetros farmacocinéticos favoráveis, complementando os resultados obtidos em laboratório (in vitro).

“A nossa ideia é tentar descobrir um inibidor de urease que, se não for uma estratégia terapêutica primária, possa ao menos potencializar os fármacos disponíveis e aumentar sua eficácia, reduzindo o tempo de tratamento”, afirma Thayná. Os próximos testes serão feitos em animais para confirmar a potência e a ausência de toxicidade das moléculas.

A busca por alternativas é considerada urgente pela OMS, que classifica o Cryptococcus neoformans como prioridade crítica global. A doença afeta majoritariamente pacientes imunocomprometidos, e os tratamentos hoje disponíveis são limitados pela alta toxicidade.