Dois estudos divulgados nesta terça-feira (16) por pesquisadores da UFRJ e do Observatório do Clima indicam que a Petrobras pode diminuir sua dependência do petróleo e se tornar referência em energia limpa no país.
Para isso, a estatal deve diversificar investimentos, adotar tecnologias inovadoras e assumir papel central na transição energética nacional.
Atualmente, o foco da empresa ainda está no petróleo, com menos de 10% do plano de negócios até 2029 voltado para iniciativas de baixo carbono.
Os estudos recomendam que a Petrobras amplie investimentos em biocombustíveis de segunda e terceira geração, desenvolva hidrogênio de baixo carbono e aposte em combustível sustentável de aviação (SAF). Há também sugestões para que a estatal retome a atuação na distribuição de energia, criando pontos de recarga para veículos elétricos ou até recomprando a BR Distribuidora.
Outra proposta é destinar parte dos dividendos da empresa para financiar ações de mitigação, como combate ao desmatamento, e projetos de adaptação às mudanças climáticas. Segundo as análises, isso permitiria manter a lucratividade da Petrobras e contribuir para que o Brasil cumpra as metas de redução de emissões — entre 59% e 67% até 2035, em relação a 2005 — e alcance a neutralidade de carbono em 2050.
De acordo com Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, o petróleo deve perder importância no portfólio da Petrobras para dar espaço a outras áreas de energia. Araújo ressalta que, embora a estatal destaque reduções em operações diretas, o maior impacto climático ocorre na queima dos combustíveis fósseis, responsável por 80% a 90% das emissões totais.
Dados do site Fakebook.eco mostram que as emissões indiretas da Petrobras (escopo 3) corresponderam a 85,2% do total entre 2015 e 2022, chegando a 421 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2022 — mais do que todas as emissões do Reino Unido nesse período.
O Brasil exporta pouco mais da metade do petróleo que produz, e mesmo o petróleo queimado fora do país contribui para o aumento das emissões globais, embora não pese na contabilidade nacional.
Desafios e estratégias para a transição
Os relatórios destacam a necessidade de alinhar a Petrobras ao Acordo de Paris e às metas climáticas brasileiras. O Observatório do Clima defende um cronograma compatível com a limitação do aquecimento a 1,5°C e diretrizes de transição justa, garantindo empregos e desenvolvimento social. Isso exigiria rever a prioridade dada à expansão do petróleo e redirecionar recursos para setores de baixo carbono.
Carlos Eduardo Young, professor do Instituto de Economia da UFRJ, reforça a necessidade de aumentar investimentos em transição energética e mitigação. Helder Queiroz, também da UFRJ, afirma que a exploração de petróleo ainda será necessária para garantir autossuficiência e manutenção das reservas, mas alerta para o risco de “ativos encalhados” diante da redução do consumo e pressão internacional.
O estudo ressalta que a Petrobras está em posição de vantagem competitiva devido à excelência técnico-operacional e à experiência acumulada em novos combustíveis e biocombustíveis. No entanto, a fragmentação da geopolítica global e a hesitação das grandes petroleiras em diversificar portfólios tornam a transição energética mais desafiadora.
Exemplos recentes incluem a Shell, que cancelou projetos de energia solar e eólica onshore no Brasil e suspendeu investimentos globais em eólica offshore e hidrogênio. A BP também interrompeu projetos de hidrogênio verde e vendeu ativos de energia eólica nos EUA.
As análises utilizaram dados do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), informações financeiras da Petrobras, cenários da Agência Internacional de Energia (AIE) e estimativas do SEEG. Foram considerados parâmetros do Acordo de Paris, a NDC do Brasil em 2024, a Estratégia Nacional de Mitigação de 2025 e propostas do Observatório do Clima.
O processo envolveu oficinas com organizações da sociedade civil, especialistas em energia e clima, além de projeções econômicas, como o crescimento médio de 2,1% ao ano do PIB brasileiro até 2050.